BrELT Chat hoje sobre o ensino de inglês para adolescentes

O BrELT Chat retorna trazendo um tema que sempre gera muita discussão: adolescentes. Hoje discutiremos atividades que motivam essa faixa etária tão exigente.

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Não perca, é hoje, 10 da noite, horário de Brasília. O Chat acontece neste tópico e caso você queira receber um lembrete do Facebook é só clicar neste link e confirmar a sua presença no evento.

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Mulheres Voluntárias: Aline Aguirre, Juliana Foresti, Sindy Sato e Vanessa Viana.

Nossas entrevistadas de hoje são as 4 mulheres que cuidam do grupo Professores e Escolas de Inglês. Conversamos com este time de mulheres maravilhosas e o resultado foi este papo descontraído que vocês podem conferir abaixo.

 

O que te motivou a fazer esse trabalho?
Vanessa: O que me motivou a fazer isso foi gostar muito desse grupo e ver a oportunidade de contribuir para o crescimento profissional dos meus colegas de forma positiva.

Juliana: O grupo estava bem abandonado na época, ocorrendo diversas discussões, falta de respeito entre os membros, xingamentos, etc. Percebia que a administração do grupo demorava muito tempo para que atitudes fossem tomadas. Então, decidi conversar com o Vinicius Angusti (o criador do grupo) sobre essas questões e ele me ofereceu a posição de moderadora há uns 2 anos quase. Adorei a ideia! Finalmente poderia colocar ordem!
Aline: Eu soube que a Juliana (que estava moderando sozinha na época) estava com uma sobrecarga por tentar ajudar diversas pessoas, que acabavam por aproveitar-se da sua boa vontade. Como eu estava em licença maternidade, com tempo livre, resolvi ajudar.

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Aline Aguirre

Qual a coisa mais difícil de fazer um trabalho voluntário na área de teacher development?

Juliana: Acho que receber um “muito obrigado” e agradar as pessoas. Às vezes acho que as pessoas pensam que temos obrigação de estar ali 24h por dia, como se não tivéssemos uma vida fora da Internet.
Aline: Agradar, mas não acho que seja só na área de teacher development, acredito que isso seja um feature do ser humano.
Vanessa: Olha, a falta de tempo é muitas vezes minha maior dificuldade, porque a gente tem que ganhar dinheiro, né? Lidar com pessoas que curtem agredir e ofender também é desafiador, mas tem o botão de bloquear que torna a vida mais fácil.
Sindy: Talvez o fato que muitos membros não entendem que para este trabalho voluntário nós moderadoras usamos nosso tempo livre para acompanhar as discussões e garantir que todos estão “se comportando”. Mas justamente por sermos mulheres, todas temos jornadas duplas, quando não triplas, portanto nosso tempo livre é muito escasso. É incrível a quantidade de “tretas” que brotam nos fins de semana! E ainda mais incrível é a quantidade de membros indignados que nos contatam por inbox para reclamar do que falamos ou não falamos.

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Sindy Sato

Há muitos conflitos no seu grupo? Como lida com eles?
Vanessa: O grupo tem mais de 25 mil pessoas, então sim, há conflitos, mas no geral tem muita gente do bem, e é por essa gente do bem que eu faço esse trabalho com gosto. Minha forma de lidar com conflitos é na base da conversa, de tentar entender o outro e mediar o conflito para que as partes se entendam. O mais importante é fazer valer as regras do grupo que foram criadas pelos próprios membros.
Aline: Acho o conflito saudável enquanto não haja troca de ofensas. Sou a ‘dedo pesado’ do grupo. As regras de convivência foram decididas em conjunto pelos membros e todo mundo deveria saber cumpri-las sem ter que ficar tomando pito.
Juliana: Sim, sempre teve. As outras moderadoras sabem que eu tenho uma tolerância zero com xingamentos, falta de respeito e coisas que não são pertinentes ao mundo de ELT. Então sempre bani do grupo quem descumpre as regras.

 

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Juliana Forresti

Como você acha que esse trabalho impacta no seu desenvolvimento profissional?
Aline: Acredito que as coisas que publico hoje passaram a ter um alcance maior.
Juliana: Hoje em dia eu creio que me sinto mais ávida por conhecimento. Quando alguém tem alguma dúvida, ajudo da maneira que sei. E se não sei, busco fontes para saber, pois é ótimo descobrir uma coisa nova. Eu acho que não teria desenvolvido tanto meus conhecimentos se não fizesse parte do grupo e mais ainda agora da moderação. Eu e as meninas estamos sempre em contato, sempre trocando experiências. Era um trabalho solo antigamente. Hoje é um trabalho em conjunto.
Vanessa: Eu constantemente compartilho com o grupo minhas ideias e opiniões, aprendo muito, e quando tenho dúvidas gosto de ouvir a opinião dos colegas, sharing is caring.

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Vanessa Viana

 

Qual a extensão da contribuição do seu grupo para o desenvolvimento dos professores que fazem parte dele? Como você mede isso?

Aline: Eu meço por mim mesma. Desde que entrei para o grupo, quanta coisa pude aprender com os outros, e sobre muitos aspectos: metodológicos, administrativos, financeiros, ou simplesmente ideias para aulas.
Juliana: Nosso grupo tem uma rede colaborativa de trocas de materiais, de vagas de trabalho, de divulgação do próprio trabalho. Contamos também com a participação de uma rede de especialistas dispostos a ajudar, a transmitir seus conhecimentos de forma gratuita, ganhando assim uma maior visibilidade de seus trabalhos.
Vanessa: Todos os dias temos professores em início de carreira, ou que estão mudando seu foco, entrando no grupo, esses professores pedem dicas de materiais, de precificação, de metodologia, de nicho, de finanças, de contrato, e de muitas outras coisas que alguns de nós podem considerar básicas, mas que nem todo mundo domina. Eu vejo que as pessoas se ajudam muito e se oferecem para dar dicas, conversar, esclarecer pontos específicos, e isso forma uma rede de apoio muito importante numa profissão que é muito solitária. Eu vejo que as dúvidas são sanadas sempre de forma quase imediata, e pessoas que só se conhecem no mundo virtual passam a indicar umas às outras quando são postadas dúvidas referentes ao assunto que alguém domina. Acho que já caminhamos um bom tanto como comunidade nesse sentido.

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Aline, Juliana, Vanessa e crianças

Quais os objetivos que você ainda gostaria de alcançar através do grupo?
Aline
: Meu objetivo é só manter o grupo up and running. O grupo é o objetivo em si.
Juliana: A paz mundial?? (risos). Só gostaria de um dia poder ver os membros conviverem em harmonia, com respeito, sem conflitos.
Vanessa: Eu quero ver o grupo mais organizado, onde fique mais fácil encontrar o que a gente procura, mais harmonioso, um lugar neutro onde haja menos julgamento e rusgas, onde as pessoas possam concordar e discordar com educação e respeito, para que possamos conquistar direitos como categoria unida. Adoraria que as pessoas se vissem mais como parceiros do que como inimigos. De um ponto de vista mais objetivo, quero firmar parcerias com as pessoas que oferecem produtos e serviços para professores, de forma que esses parceiros ofereçam descontos aos membros do nosso grupo em seus produtos e serviços.

 

O que você considera um drawback no grupo e como lida com isso?
Sindy: Muitos fakes e trolls – não imaginava quantas pessoas têm prazer em tumultuar as discussões, assumindo posições radicais somente para irritar outros membros. Tem sido um bom exercício para aumentar minha paciência, quase uma lição cósmica. No início não tinha certeza como deveria interferir nas “tretas” e pedia a opinião das outras moderadoras para não agir injustamente, mas agora simplesmente my rule of thumb é que todos os membros devem seguir as regras criadas pelo próprio grupo.

Aline: Gente besta. Gente besta é um drawback complicadíssimo. Como lido com gente besta? “Seu comentário foi ignorado com sucesso.”

Juliana: Pessoas sem noção, arrogantes, pessoas que querem esfregar na cara dos outros membros seus conhecimentos. O grupo existe para ser uma rede colaborativa, onde todos possam expor opiniões, ajudar, desde que seja feito com respeito. Ofender alguém só porque a pessoa não tem o mesmo conhecimento, ou só porque não compartilha do mesmo ponto de vista, é algo que precisa mudar. E como disse anteriormente, todas nós da moderação temos uma tolerância zero com ofensas.

 

Agradecemos muito pelo papo irreverente. Desejamos que o grupo de vocês continue sendo um sucesso!

 

 

 

 

Teacher development: an interview with Debora Schisler

Teacher development is the core of what we do at BrELT. Our community believes that everyone should have a chance to develop, but we also understand many people don’t know where to start.
Our guest today is a woman who is passionate about teacher development, a woman who has contributed to the training of many teachers from all over the country, including two of our current BrELT moderators. Learn a bit about one of the most important ELT professionals in Brazil, Debora Schisler from Seven Idiomas.

Tell us a bit about your career as a teacher and teacher trainer.

 I graduated in Anthropology in the US, and when I came back to Brazil I tried to work in this area with women in grass root communities. But as this did not bring income for my survival I started teaching English. After 7 or 8 years still trying to work in my field, and enjoying teaching, I decided that what I really loved was teaching. This led me to my MA in Applied Linguistics.  That is what consolidated my career. I worked at a renown binational school in SP, but when a group of teachers decided to open their own school that is when my career took off. I became the person responsible for teacher training. At the beginning of SEVEN I soon heard of an organization which does not exist anymore called LAURELS ( Latin America Related Language Schools). For us to join it, I had to present a workshop – I guess to see if we had quality and could contribute. Through LAURELS many doors opened. We organized conferences, met international speakers, began presenting there and at Braz-Tesol. It was through LAURELS that I was able to be trained up as an ICELT tutor, and 10 years later a CELTA tutor, and more recently a DELTA 2 tutor. Being the academic director of SEVEN also pushed me into attending international conferences, and bringing new ideas to implement.  These were incredible years. I owe a lot to all the wonderful people I met in this period.

 

What has changed since you started in the field of professional development for teachers?

Well, when I started teaching there was no teacher training!  But soon the binational centre where I worked had workshops and began teacher training programs. I remember once how they divided us into groups who were sent off to learn another language. We had to then relate this to our teaching. It was fascinating.  Soon Braz-Tesol and Laurels came into existence and this started changing the scenario. Laurels innovated and differed from BrazTesol in that it also offered professional development beyond teaching. At Laurels we began to create a certification program for Language schools – kind of an ISO-9000 that a school could use to evaluate its services from teaching to customer service and quality assurance. A lot has changed. Today Braz-Tesol has a Management SIG. The biggest change, however, are all the online possibilities that are making learning more accessible as technology improves. Online learning reduces cost and time. Today there are many great professionals preparing teachers online for language exams like the CAE, CPE; for the DELTA exam; giving workshops in interesting areas such as technology, 1 to 1 ; certification programs like the CELTA , CLET-P CELT-S, and TKT. If one organizes oneself financially, it is easier to attend conferences, not to mention taking the free MOOC (Coursera, Future Learn etc…) courses that are available.

 

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Debora Schisler

In your view, what motivates teachers to engage in professional development?

Curiosity, wanting to understand why certain things happen, to have more job opportunities, and personal satisfaction.  I have noticed that many who take the CELTA want to have the teaching abroad experience. Those who take the Delta want to become top performing teachers or trainers.  In my case I went after my MA because I wanted to understand why my students made the same mistakes in writing and speaking. I was curious to learn more on language acquisition. Had there been a CELTA back in the early 70’s in Brazil I would certainly have taken it.

I was an unconscious competent teacher (Maslow’s definition) who needed to understand what I was doing. I was what Penny Ur called a born teacher who needed to be made, because I had no clue of what teaching was about.
How important is the sharing of practical ideas that directly relate to the day-to-day operation of classrooms in teachers’ development programs?

Super important. Teachers have incredible solutions for teaching language and skills, using technology, dealing with problematic students and discipline, and class management. I have and am constantly learning when I observe teachers at my school, or in the teacher courses I give, let alone those who are the peers in these teacher development programs too. Once Marcelo Dalpino, now Academic Manager at Cultura Inglesa SP,  showed me how to do dynamic pair work with 25 students in a class at a regular school. He got every other student to stand up and face the other who was seated. They would do whatever they had to practice and when he clapped , the standing student would move to the right. So, all the  12 or 13 students were able to practice the task with another 12 or 13 in class, without a bit of disruption.
Why are some teachers reluctant to professional development and what can we do in order to change that?

That is an excellent question. First, I think that there are many teachers who are not aware (unconscious incompetent) that they could benefit from developing themselves. They probably think that what they have is enough. Plus I have heard people say, you “took such and such course, or a master’s and don’t make much money”. This is true, but what they don’t see is the satisfaction, the possibilities that open up in being able to teach different ages, or types of courses. Second, ego plays an important part. Many people are scared of taking courses, being corrected, receiving feedback on their teaching which they consider criticism. Some think they are already good, and don’t need anything or don’t see a perspective in investing in their development. Finally, there are those who would like to develop, but claim they don’t have time or don’t have the money. To me, this last case is a cop-out because today there are soooooo many free online courses, materials, sites available that can fit into anyone’s time and pocket.

There has been an exponential growth in the number of bilingual schools. On this note, what does the future of professional development hold?

In ELT teachers are professionalizing themselves more and more to teach anywhere around the world, be it in bilingual schools, language schools, regular schools, professionalizing schools, private classes, because the market is requiring both language and teaching certifications. They want people who know what they are doing. In Brazil the growth of bilingual schools has spurred a rush for qualified professionals in the market, so a university degree is not enough anymore.  
How do you think the role of the teacher trainer has changed and will change in the future?

We will certainly be delivering more online courses, but continue to be responsible for helping teachers become more aware of themselves and to help them develop a more professional attitude.
What would you like to say to our members?

Teaching is a fascinating and enriching profession. You are always learning with your students from their experiences and professional areas. Henrique Moura was my ICELT student. Today he runs the Teacher  Education Programs at SEVEN. I am constantly learning with him from things like how to use my Mac better to different ways to present vocabulary etc.

What tips would you give to a teacher willing to become a teacher trainer? What are the steps to follow?

First,  ask what this person has done and would like to do. Based on this there are some things that can be considered: offering them the opportunity to give workshops at their school, and creating a study group where teachers can research topics and sharing them with their peers are some ways of stimulating them. Encourage them to become a member of a professional group like BrELT, Braz-Tesol and to participate in their events and conferences, or write for the newsletter. Networking is essential. Parallelly, recommend going after their certifications both in language and teaching.

Debora, thank you so much. You are a role model to many and we understand that’s not only due to your extensive knowledge, but because you are generous and kind.   
If you want to see Debora’s participation in our Women’s Day Chat, click here.

 

Mulheres que inspiram: Sara York

Em comemoração ao mês do Dia Internacional da Mulher, continuamos a nossa série de entrevistas com mulheres que nos inspiram. A convidada de hoje é a professora Sara Wagner York, moradora de São Pedro da Aldeia, no Rio de Janeiro.

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Sara York é graduada em Letras – Inglês (Licenciatura / UNESA) e Pedagogia /Licenciatura – UERJ, especialista em Gestão Pública na Cultura e atuação do Agente Cultural (UFRRJ) e Escola de Tempo Integral (UFGo). Enquanto ativista LGBTQI+, Sara trabalhou junto à ONG Britânica Sahir House no Reino Unido, em ações de inclusão de refugiados vindos do Oriente Médio, América Latina e África. Mestranda em Educação – ProPEd – CAPE 7 (Nota máxima) do Geni – Grupo de Estudos em Gênero, Sexualidade e(m) Interseccionalidades na Educação e(m) Saúde. Pesquisadora (em Linguagens) em Políticas Públicas e Cultura em Direitos Humanos, pelo NEPP-DH/ UFRJ. Em palestras Sara fala em primeira pessoa sobre o processo de inclusão de pessoas Transgêneros e Travestis nas dinâmicas sócio-educacionais, lutas e complexidades na contemporaneidade, num processo cartográfico de si, de modo a tornar a leitura de sua audiência plena dessa necessidade. Premiada com a Medalha ALUMNI da Universidade Estácio de Sá (2017) pelos trabalhos científicos desenvolvidos junto a comunidade, Sara aceitou nosso convite e o resultado não foi apenas uma entrevista, mas uma lição de vida. Confira:

Você recebeu destaque na mídia por causa de um vídeo ensinando inglês com batidas do funk. Conte mais sobre isso.

Na verdade na mídia foi antes, ganhei notoriedade por ser hairdresser de muitos famosos, alguns a nível mundial, mas principalmente por ter sido a cabelereira de Elza Soares durante o evento em que ela ganharia o Prêmio de Cantora do Milênio na cidade de Londres no Reino Unido em 2012, onde trabalhei por quase 10 anos. Talvez esse seja o meu grande goal,  por ser uma profissional reconhecida no meio artístico por realizar trabalhos para artistas fora do Brasil.

Como foi esse reconhecimento?

Na verdade foi uma surpresa ser chamada pelo pessoal do MidiaNinja, que é hoje um dos maiores veículos que temos, onde todo e qualquer cidadão pode ser lido/visto/ouvido, sem passar pelo crivo das marcas mantenedoras das mídias. Sabemos que essa mídia tenta controlar as massas, suas crenças e suas/nossas ações, entretanto nossas inserções e trabalhos frente a passividade de tantos tem eclodido em novas formas de luta, ação e intervenção.

Recebeu muitos elogios ou críticas?

Muitos elogios. Tanto de pessoas extremamente capacitadas e respeitadas nos campos educacionais, quanto de responsáveis de alunos de todo Brasil que perguntavam onde poderiam encontrar tais dinâmicas e trabalhos assim. O que aliás é recorrente na sala de aula de de inglês mas poucos sabem de nossas abordagens frente ao currículo que nos é sugerido e seguimos. Muitos responsáveis que têm melhor relação com os fazeres diários de seus filhos também pontuavam: “já vi muitas vezes isso na sala de aula de meus filhos…”. Recebi poucas críticas e todas que li foram em função da superficialidade de compreensão ou opinião preconceituosa diante do título da matéria que fala de uma professora trans que ensina inglês com batida de funk, que poucos leram e o fizeram de modo torpe. Li pessoas que não gostam das letras do funk, achando que se tratava de letra e não de música, outras que achavam que seria em  função de ser transgênero e outras confusões por parte dos que não leram a matéria e opinaram a partir do título. Acho importante falar pra evidenciarmos o impacto das das mídias digitais diante de quem se guia pelas pós-verdades.

Nessa mesma matéria, destacam o fato de você ser uma mulher trans e/ou travesti.  De que formas esta condição afetou/ afeta seu trabalho?

Ao termos um criança integrada numa sala de aula onde a regência é feita por uma professora com comprometimento com ensino, amplitude, inclusão e de qualidade, teremos estudantes mais reflexivos, críticos e empáticos. Não se trata do reforço de uma “aceitação” ou “cotas” (caso houvesse) termos uma professora transexual em sala de aula diante de crianças que iniciam suas compreensões, questões pessoais e buscas, mas vê-las buscando o respeito e a empatia em outras estruturas até então desconhecidas e/ou tidas como abjetas. Isto é alguém cuja existência pode ser meramente resumida a um momento e não em sua complexidade enquanto sujeito detentor de direitos. Ao termos este corpo diretamente questionado pelo processo educacional como pela sua coerência, é implicar o valer de direitos e da nacionalização de corpos que falam além das palavras e incomodam para além de sua existência. A sexualidade é discutida com comedimento, como dito pelo Prof.Dr. Pocahy, meu orientador. Ninguém quer sair falando dos assuntos “tabus” na escola, mas é em função desta compreensão que cada dia mais a escola tem sido sucateada pelos sistemas. Se não falarmos de sobre existências e sobre como tornar pessoas aptas a acessar sua cidadania, para que mais servirá a escola, se não para nos dar estes instrumentos? Faz se aqui, o deslocamento de estereótipos em suas representações, quando vemos que “ter uma travesti na escola” pode soar como algo que nos cause surpresa ou até indignação, a pergunta é porquê e de onde vem esta noção para percebermos-na dessa forma?

Como é ser professora da escola pública em tempos de conservadorismo e projetos como ‘escola sem partido’?

O medo (de algo mal ouvido/interpretado ou mal lido) e a agonia (por ver quem é atingido por quem usa destas instâncias, como as pós-verdades na rede) são permanentes!

O deputado Sóstenes Cavalcante, por exemplo, que é um parlamentar do Rio de Janeiro, desde o ano passado tem criado uma série de problemas ao pedir intervenção no Colégio Pedro II,  numa tentativa de criar o enfraquecimento do ensino público. Numa das maiores instituições de ensino do País, a UERJ e seu desmonte que aos olhos do público e veiculado pela grande mídia tem estado em situação precária, mas que em contraposto segue sendo reverenciada por suas políticas e práticas educacionais de nível internacional, segue também com qualidade e resistindo aos golpes que também sofre por parte dos governos em todas as instâncias. Voltando ao “escola sem partido”, neste ano (ano eleitoral e não eleitoreiro, como muitos insistem em pensar!) o deputado já mencionado decidiu, a partir de uma decisão do SFT que abriu instâncias para o pleno reconhecimento das identidades, que seria  de “bom tom” penalizar pessoas trans com 1 ano de prisão caso usassem o banheiro de seu gênero. O que pensar de quem pensa em banheiros como lugares de práticas que não aquelas conhecidas? Que tipo de escola o menino Sóstenes frequentou? Certamente a mesma que eu, uma escola que seccionava.

O trabalho que uma professora desenvolve durante uma vida inteira talvez nunca seja reconhecido senão por seus alunos, talvez diretores e uns poucos colegas. Em um momento político onde profissionais da segurança não respeitam as manifestações de professoras/es, como temos visto em São Paulo, talvez isso me faça ver melhor que escola é essa que frequentaram aqueles que hoje são nossos gestores. De onde vem esses senhores, onde educação e cassetete seguem no mesmo guia?

Além de fazer um trabalho que me esforço e que planejo, ter bons amigos e que gostem e admirem sua caminhada pode fazer diferença se você não possui o famoso “QI”. Meu trabalho vem sendo desenvolvido desde muito cedo, sou professora desde os 16 anos e não me acostumo às práticas servis, capitalistas e patriarcalistas  na educação.

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A professora Sara York

 

Conte-nos sobre a sua experiência na escola enquanto aluna. Como foi?

Péssima!

Cresci cercada de professoras/es e familiares que condenavam certos assuntos. Lembro-me de minha tia claramente fazendo “caras e bocas” diante de alguns comentários. Era comum naquele momento em alguns lares na cidade de Goiânia- GO, nos anos 70/80, termos a compreensão da aluno como depositário. Hoje sabemos que não é e não é assim que funciona! Na educação infantil e no ensino fundamental, senti carinho e afeto por uma única professora, a Tia Íris (na pré-alfabetização e depois na 3°série, hoje 4° ano) que mesmo sem muito tempo se esmerava em ser muito doce e solícita). Os demais, por já percebem que estavam com uma criança-viada (em alusão ao evento Queer de Curitiba) faziam questão de serem não inclusivos, seccionistas e cruéis em muitas ações e atividades no cotidiano escolar, como por exemplo, ser ignorada em TODAS as aulas no pátio quando meninas praticavam vôlei e meninos futebol e eu, por não ser lida como menina e não gostar de ser “chacota” dos meninos, passava o ano sendo excluída pelos professores, orientadores e direção, como se fosse a coisa mais natural que podia ser feita. No 8° ano tive minha única reprovação: era a junção da exclusão familiar e educacional. Eu era uma criança e assistia a tudo sem saber “o que ou a quem recorrer”. Tudo isso, numa escola particular.

No ensino superior as experiências foram menos danosas, mas não tão diferentes. Minha segunda docência desta vez em Pedagogia, foi finalizada em 2016 e mesmo naquele espaço que deveria ser inclusivo, práticas de bullying como a segregação, foram vivenciadas/observadas. Mesmo aos 40 anos, o que deveria ser um rastro da minha infância foi tão intensos quanto antes.

 Você claramente é uma pessoa que estuda bastante.

Estudo muito mesmo, não tenho TV há mais de 15 anos e não tenho o hábito de agitações noturnas. Tenho poucos amigos que estejam fora das dinâmicas de compreensões sociais e processos de inclusão. Sou solteira e tenho um filho de 24 anos e sou uma avó ausente muitas vezes. Pra se ter ideia de como a inclusão é um processo poderoso, uma das minhas grandes amigas (cis), que no 2°grau assistiu a muitas exclusões por mim vividas, a prof. Claudia Arantes,  tornou-se professora e instrutora de LIBRAS– Lingua Brasileira de Sinais –  sempre sonhávamos num mundo pra todxs...

Como é ocupar espaços de conhecimento que muitas vezes são negados às mulheres trans?

Sempre foram negados, seja nas práticas de bullying, seja na segregação. O ensino é a maneira pela qual o conhecimento é transmitido, é como conseguimos melhorar nosso intelecto e enriquecer nossa cultura e clareza sobre as coisas da vida. A educação refere-se aos valores humanos e sociais. A segregação e rejeição às pessoas trans são formas de garantir que tais ações nos âmbitos sócio-político-financeiro não cheguem até a nossa população, e isso inicia-se muitas vezes nas famílias que rejeitavam filhos/as por terem como ideal herdeiros que coubessem dentro das histórias de altivez. Entretanto, para nós essa Altivez é um passo a passo que nos é sempre negado. Ao passar pela socialização o indivíduo, através de sua leitura de mundo, compreende a vida e o que o cerca (casa, trabalho, espaços múltiplos, diversão e a escola como parte disso). Permitir a evasão escolar do público trans faz com que aqueles alunos que percebiam a escola como extensão de suas estruturas familiares, possam novamente ter essa identidade negada, reprimida, violada ou ignorada, como razão para o abandono.

Como você acha que nós, professores de inglês, podemos contribuir para que alunos LGBT no geral não sejam excluídos do ambiente escolar?

Acredito, que por ser da área de linguagens, nós somos profissionais que pensam o indivíduo por outros olhares, seja em suas completudes ou falta delas, seja nas subjetividades e colocações, seja em suas ações ecoadas na linguagem. Professoras/es de inglês, via de regra, são pessoas visionárias que por necessidade buscam a imersão e a inclusão de todas/os. A disciplina de Inglês é uma disciplina pensada como e a partir da integração, da ação do “verbo”. As problematizações de gênero no uso de suas formas neutras na língua inglesa são uma prática comum, corriqueira e inclusiva para qualquer professor/a de Inglês. A língua traz sua neutralidade em muitas situações, orações, sujeitos, artigos, pronomes.

O que seria mais inclusivo do que ser professor/a de inglês? Talvez seja ser professor/a inclusivo de inglês no Brasil, onde a linguagem é marcada pelas instâncias do patriarcado e da sujeição branca e europeia mas não é só isso. A linguagem valorizada é aquela que vem do Norte e tem raízes judaico-cristãs (lembrando que o nosso Sul, na verdade é a própria colonização do Norte em ação, como bem pontua Boaventura Santos), o que diz muito sobre nossas formas de perceber as divindades, nossa religiosidade e nossas alteridades.

Quais os assuntos que são mais urgentes para a população LGBT nesse momento?

É importante destacar, nessa pergunta, o fato de estarmos “refazendo os retornos”, onde a nossa busca mais se associe à práticas de legitimação. Como, por exemplo, a instrução sexual oferecida em separado a meninas e meninos, por entender que são diferentes em função social, política e sexual. Como argumenta Paul Preciado:

em primeiro lugar, existe o regime de poder necropatriarcal arcaico, segundo o qual apenas o corpo masculino é um corpo totalmente soberano. Os corpos de mulheres, crianças e organismos não-humanos são inferiores. A soberania masculina é definida em termos necropolíticos com o monopólio legítimo da violência. A autoridade paterna e masculina é primordial e absoluta”.

Se a geração Y está recriando caminhos plurais, por outro lado uma juventude mais consciente tem buscado a compreensão de um “ideal comunitário”, mas também individual. Compreender que links com estruturas não comprometidas com partidarismos e que busquem tratar de casos comuns e específicos tem sido um grande desafio. Se por um lado o TSF, nos traz a possibilidade de inclusão social através de um declaração própria onde as instâncias jurídicas nos compreenderão dentro dos seus binarismos, por outro é preciso instrumentalizar de cidadania (direitos e deveres) o dito “homem comum”.

Você mora na cidade de São Pedro da Aldeia – RJ, o que de mais efetivo tem sido feito para a população Trans?

A cidade possui uma secretaria que trata dessas políticas e atuações, sobre as quais não posso comentar por não estar diretamente ligada e mesmo sendo trans, não acessá-la e conhecê-la. O fato de estar num Programa de Pós Graduação em Educação da UERJ, ser orientanda de um grande pesquisador me fazem pensar a vida como prática política, mas também como de controle de ações. Estar num programa nota máxima (7) atribuída pelo Capes e por se tratar de um programa de conceito internacional, não me permite estar além das minhas proposições que são aprender para aplicar, alterar, modificar, provocar em várias instâncias de modo efetivo e tenho me empenhado para isso. A sujeição de pessoas trans ainda é prática comum em muitos espaços e não seria diferente aqui. Entretanto, meu trabalho com a pedagogia freiriana, que busca libertar oprimidos para que sejam menos opressores, tem sido feito, mesmo diante da grande demanda para ações concretas. Junto às instituições públicas as quais tenho acessado no estado, e nas minhas salas de aula o que tenho feito é ouvir muito e provocar sempre de modo a ter estudantes que possam em suas vivências educacionais experienciar a escola como lugar de prazer, de pesquisa e de socialização com e para todas, todes, todxs e todos.

Se vivemos em um momento em que enfrentar pode ser a solução para as novas reinvenções do capitalismo, sendo este o pai zeloso de todas as outras formas (o patriarcado, o sexismo, as religiões mononucleares e tantos outros filiados), ao ser uma transgênero em sala de aula sou aquela que diante do outro e sem dizer uma só palavra é capaz de provocar o questionamento sexual de si, o que é  um processo de equiparação real de estruturas humanas não inclusas, a serviço da ruptura desse sistema, ou seja, ver uma pessoa que tínhamos como ausente ou inexistente se tornar alguém que possa ser admirada e seguida, e quem sabe um dia verei no mundo, com fluência e liberdade algum/a aluna/o dizer, sou trans e professor/a – inclusivo/a, por que tive como exemplo uma trans-professora-inclusiva.

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BrELT CoLAB: We need to talk about Marielle Franco by Bruno Andrade

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The symbolic execution of Brazilian city councillor and minority activist Marielle Franco has motivated Bruno Andrade to write a conversation lesson about violence, racism and prejudice.

 

Aim: Provide B2/C1 students opportunities to discuss issues like violence, the inherited prejudice against colored and LGBTQIA people and politics in Brazil.

Duration: approx. 45m

Click here to access the lesson plan. The rubrics are below each slide.

#MariellePresente

Bruno Andrade is the founding member of BrELT and a professor at the Federal

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University of Rio de Janeiro (UFRJ), Brazil. He is also a primary and secondary English teacher at two private schools in Rio. He is the Public Relations Coordinator for the Young Learners and Teens Special Interest Group at IATEFL (The International Association of Teachers of English as a Foreign Language). He holds an MA in Applied Linguistics from UFRJ and has experience in teacher training, course creation, materials editing, organizing events and educational consultancy.

You can contact Bruno at brunoandrade82@gmail.com

Mulheres Voluntárias: Cecilia Nobre

Com o dia internacional da mulher chegando, nós da BrELT gostaríamos de enaltecer  o trabalho de mulheres que doam seu tempo e recursos para promover o desenvolvimento de professores online de forma voluntária. Cecilia Nobre, fundadora do grupo Private English Teachers – Reloaded e BrELTer assídua, é a nossa primeira convidada.

Cecilia leciona inglês desde 1999. Ela é formada em Letras pela UFRJ e possui o CPE. Desde 2010 ela leciona alunos individuais e nos últimos 2 anos tem se dedicado quase totalmente às aulas online, tendo também oferecido cursos para professores ensinarem online. Cecilia recebeu a bolsa Hornby do British Council e atualmente cursa o mestrado em ELT na University of Warwick, na Inglaterra. Seus interesses incluem desenvolvimento de material, uso de vídeos em teacher development e teacher education.

1- O que te motivou a fazer esse trabalho?
Como professora freelance há anos, eu sentia que havia pouco espaço no Facebook para esses professores conversarem e trocarem experiências.

2- Qual a coisa mais difícil de fazer um trabalho voluntário na área de teacher development?
Eu acho que é tentar motivar as pessoas o tempo todo e entender os diversos tipos de contextos onde os professores estão inseridos, muitos deles fora da minha realidade.

3- Há muitos conflitos no seu grupo? Como lida com eles?
Não acredito que haja muitos conflitos, pois eu marco em cima. Todos os posts são previamente moderados e acho que já se construiu uma cultura de colaboração no grupo. Algo que ajuda muito também é contar até 100 antes de responder algo grosseiro imediatamente.

4- Como você acha que esse trabalho impacta no seu desenvolvimento profissional?Impacta muito. Eu aprendo novas técnicas, leio blog posts que os membros recomendam, questiono minhas próprias práticas ao ler que alguém faz algo diferente de mim.

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Cecilia Nobre

5- Qual a extensão da contribuição do seu grupo para o desenvolvimento dos professores que fazem parte dele? Como você mede isso?
Eu me dedico muito ao grupo, sempre procuro compartilhar novas ideias, blog posts interessantes que leio, webinars disponíveis, faço comentários quando acho que posso contribuir com algo útil. Recebo muito feedback de professores em off e no próprio grupo dizendo o quão importante ele é para CPD (continuous professional development).

6- Quais os objetivos que você ainda gostaria de alcançar através do grupo?
Eu gostaria que mais professores de diferentes países e backgrounds participassem dele, acho essa diversidade muito rica para todo mundo. Não tenho grandes objetivos além de manter o grupo rico com colaborações e espero que os professores vejam-no como um ambiente seguro para se conversar sobre teaching.

7- O que você considera um drawback no grupo que possui e como lida com isso?
Acho que o único drawback é que tenho que ser muito diplomática e evito deixar meu lado emotivo como professora ser ressaltado. Talvez seja bom, mas às vezes a gente tem que segurar uns foras que temos vontade de dar.

Você faz um trabalho lindo, Cecilia, parabéns! Para todos interessados em saber mais sobre como ser um professor particular, ter dicas e diminuir a sensação de isolamento que pode vir com este tipo de trabalho, recomendamos muito o Private English Teachers – Reloaded. O seu esforço e trabalho são inspirações para muitos professores!

Calendário de Eventos ELT – Março

Depois de um mês com eventos como a Pronunciation Week, organizado pela BrELT, estamos com mais gás para  formação profissional com vários webinars e eventos presenciais, como o I Congresso de Língua Inglesa do MS no dia 10 de março, um dia inteiro de palestras, workshops e plenárias com grandes nomes do ELT abordando os maiores desafios do ensino de Língua Inglesa no Brasil e no mundo. Acompanhem nossa agenda para mais eventos.