Opinião de Professores de Inglês em Escolas Públicas

Boa quinta-feira, pessoal!

Hoje é dia de mais um #brelchat. No entanto, vamos antes relembrar o que falamos há duas semanas atrás?

O tópico foi ‎”INGLÊS EM ESCOLA PÚBLICA FUNCIONA?”, e contamos com a participação de professores de todo o Brasil.  Como a discussão foi bem rica e com opiniões divergentes, decidimos convidar professores de ensino público a compartilharem aqui no nosso blog suas visões e perspectivas sobre a questão tópico do nosso chat.

Professor André Corval – leciona no Ensino Médio do Ensino Público Estadual do Rio de Janeiro e se voluntariou a dar sua opinião após a leitura dos tweets de nosso chat.

Li os tweets e agora envio minha opinião:
É uma visão pessimista…
Não acho que hoje o ensino na escola pública fundamental e de nível médio funcione. Não apenas em inglês, mas em TODAS as matérias. Estamos sob a influência de 8 anos de aprovação automática. Assim, recebemos analfabetos funcionais no ensino médio. Daqui a 2 ou 3 anos essa safra vai acabar e talvez a situação melhore. Essa realidade é da cidade do Rio.
Quanto a inglês em si, acho muito difícil efetivamente ajudá-los a aprender. Salas precárias, turmas grandes e com frequência baixa, altíssima evasão e fraquíssimo conhecimento de português, o que dificulta demais. Para piorar, para muitos, falta a compreensão real da importância da língua inglesa.

  • O professor André Corval inseriu em uma de suas avaliações formais aos alunos uma questão na qual os convidou a darem suas opiniões sobre a importância do aprendizado de Língua Inglesa. Gentilmente,  em breve, Corval dividirá conosco os resultados desta pesquisa.
Professora e psicopedagoga Dayse Alves Barbosa –  leciona no Ensino Fundamental I do Ensino Público Municipal do Rio de Janeiro e Educopedista
Sim!!!!! Sem dúvida!
Mas para que funcione, a abordagem a seguir deve levar em consideração a realidade da criança e os recursos pedagógicos utilizados devem promover a interação e integração entre os alunos e o professor: visual aids, workcards, flashcards, TPR activities, e música adequada à faixa etária.
Esse é um pequeno exemplo de aula para uma turma de 1º ano. Nota-se como as crianças são ativas e, mesmo assim, não há interferência na assimilação do conteúdo.

Professora Márcia Prudêncio–  leciona no Ensino Fundamental I do Ensino Público Municipal do Rio de Janeiro e  também já lecionou no Ensino Médio Estadual.

Vou ser breve, mas espero que de alguma valia.
Minha experiência no Ensino Médio não foi boa. Como disse o Andre, recebíamos alunos com dificuldades imensas em relação à língua, qualquer que fosse, o que torna difícil o trabalho. Alguns alunos têm tradição praticamente oral, com pouquíssimo contato com língua escrita.
Quanto ao ensino Fundamental, no qual atuo desde agosto /2010, estou bem esperançosa. As principais carências estão começando a ser atendidas: material e aboradagem adequados, equipamentos em sala de aula, coisas assim. Sei que essa realidade anida não é fato em muitas escolas, mas na minha (Escola Municipal Affonso Taunay) tenho acesso a DVD player, radio e data show. É mister que haja uma mudança na cultura de escola, onde há as ‘matérias importantes’ e as ‘matérias divertidas’. Diretores e professores regentes precisam considerar o Inglês tão importante quanto as outras disciplinas. Isso tem tido um impacto bom nos meus alunos, que inicialmente viam inglês como praticamente recreio. Em contrapartida, nõs temos que mostrar a comunidade escolar o resultado de nosso trabalho. No momento em que as professoras começaram a ve-los falando inglês, ganhei aliados importantes nesse processo.
Só espero que não seja mais um onda na política educacional, e sim uma decisão consciente de mudança.

Professor Fabrício César Franco – instrutor de professores do Ensino Público no Estado de Pernambuco

Raquel,


Instado por você, vou tentar responder, sob minha perspectiva de ‘espectador’, terceirizada (pois não lido diretamente com alunos e escolas públicas, a não ser como instrutor de professores oriundos desse meio ou como colega de trabalho de alguns deles). Moro, há 10 anos, às margens do Rio São Francisco, na cidade de Petrolina, em Pernambuco, que tem, na outra margem o Estado da Bahia, na cidade de Juazeiro. Apesar de possuirmos mais de meio milhão de habitantes, somadas as duas cidades, e quase 700 mil em toda região, uma renda per capita bastante alta (devido à exportação de frutas), ainda somos interior do país, com tudo o que isso acarreta. Eu, vindo de Belo Horizonte, ponho-me em situação de ‘observador privilegiado’, pois percebo claramente os pontos bons e ruins disso, com base na minha experiência de vida.

Dou aulas para um curso de inglês, bastante respeitado no Brasil. Método comunicativo, com o qual concordo bastante. Tenho alunos que já são professores formados, contudo, em outras áreas, que não línguas. Por uma questão não inteiramente compreendida por mim, nos Estados da Bahia, Pernambuco e até Piauí (que fica a pouco mais de 100 km daqui), na ausência de professores de uma área, os ‘excedentes’ são colocados para ensinar a matéria necessária. Assim, já tive professores de Biologia, Geografia e até Educação Física aprendendo os rudimentos (ênfase aqui em rudimentos) do inglês para dar conta de ensinar aos seus alunos, principalmente no ensino fundamental. Não foram, deixo claro, experiências bem sucedidas. Pressionados para ‘dar conta’, chegam às nossas salas de aula cheios de dúvida, estresse e vergonha. Dizem que são velhos demais para aprender. Chegam contrariados e contrafeitos, porque acham que poderiam estar usando melhor o tempo do que estudando inglês; muito provavelmente, dedicando-se às suas áreas originais. E têm muita vergonha de errar em sala. Poucos conseguem uma nota mais elevada nos testes, raríssimos são os casos de prosseguimento no curso além do nível mais elementar. Dessa forma, imagino como devem ser as aulas nas suas escolas (li, certa feita, que um professor nunca consegue passar 100% do que sabe, e nenhum aluno aprende 100% do que foi ensinado. O que fica, então, na cabeça do alunado desses professores nessas escolas, meu Deus?).

Meus colegas de trabalho que trabalham nas escolas públicas de um lado e outro do rio (Bahia e Pernambuco)  reclamam da falta de material didático, da aprovação compulsória de alunos não dedicados (por um sem número de razões, que não cabem discutir aqui), da baixíssima vontade política de investimento no professor. Em Pernambuco, o governador, há dois anos, distribuiu verbas para que os professores (de todas as áreas) comprassem seus laptops. E a cada dois anos, também, dá uma quantia em dinheiro (além de transporte), para que os professores compareçam à Bienal de Livros do Recife, e comprem as bibliografias que acharem necessária (dentro do valor dado, claro). Na Bahia e no Piauí, não sei de nenhuma iniciativa semelhante. 

Trabalhei, logo que aqui cheguei, como Relações Públicas do governo municipal. Vezes sem conta tive que redigir ‘releases’ meio que toldando a real situação das escolas locais, suas estruturas precárias (falta de carteiras, e até de teto!) e seus resultados aquém do satisfatório. Não é só o inglês que não funciona nas escolas públicas daqui; outras matérias também não. 

Não é uma visão bonita. E como falei a você antes, sinto-me mal sendo ‘a voz da contrariedade’. Porém, é o que vejo acontecer por aqui, neste outro Brasil. Parafraseando Humberto Gessinger, dos Engenheiros do Hawaii, ‘estamos muito longe das capitais’.
Professora Ana Paula Cypriano –  leciona no Ensino Fundamental II do Ensino Público Municipal do Rio de Janeiro e  também leciona no Ensino Médio Estadual.
Sou professora de inglês da rede pública do Rio de Janeiro desde 1998. Comecei como professora substituta do CAp UERJ e professora do Estado do Rio, onde já ministrei aulas de inglês para alunos do ensino supletivo, ensino médio, fundamental regular e aceleração. Também já tive a oportunidade de dar aulas de inglês numa instituição federal. E desde 2003, também sou professora do município do Rio de Janeiro.
Com exceção do CAP UERJ, onde as turmas se dividiam para alternar as aulas de inglês e as francês, e das turmas de aceleração, que eram compostas de no máximo 25 alunos; todos os outros contextos tinham um número excessivo de alunos em sala de aula. É claro que em alguns locais, esse número era extremamente alto: às vezes tinha 70 alunos em sala. Mas cabe ressaltar que, o elevado número de alunos em sala é proveniente de políticas públicas que não favorecem em nada o processo de ensino e aprendizagem. Entretanto, como André Corval pontuou, esse problema não é uma exclusividade das aulas de inglês, mas da realidade de boa parte das escolas públicas. Essa política de turmas numerosas está em consonância com o discurso do Banco Mundial que em 1995 declarou: “…escolas nos países de baixa e média renda poderiam economizar custos e melhorar a aprendizagem aumentando o número de alunos por professor, utilizando deste modo menos professores e alocando os recursos destinados aos professores a outros insumos que melhoram o rendimento, tais como livros didáticos e capacitação em serviço (BM, 1995, apud Torres, 2000, p.167).
Temos ainda que considerar que na realidade não é o ensino de inglês, mas o de uma língua estrangeira moderna que é oferecido no currículo escolar. A LDB diz que há obrigatoriedade de incluir o ensino de pelo menos uma língua estrangeira moderna no currículo, a partir do 6o ano, antiga 5a série. A escolha da língua fica a encargo da comunidade escolar, dentro das possibilidades da instituição (Lei 9394;96, Artigo 26, Parágrago 5). O ensino de uma língua estrangeira, juntamente com a língua materna, também é assegurado pelos PCNs. Portanto, temos que considerar que no ensino fundamental II e no médio alguns alunos podem: a) estudar inglês durante todos os anos que compõem o ensino fundamental II e médio; b) alternar as aulas de inglês com as de francês e/ou espanhol durante esse período; c) ter outra língua estrangeira moderna, que não o inglês, em seu histórico escolar.
Os PCNs, escritos no final da década de 90, defendem o ensino da habilidade de leitura nas aulas de línguas estrangeiras porque acreditam que somente uma pequena parte da população necessita das habilidades orais para se comunicar na língua estrangeira dentro e fora do Brasil. Declaram que a necessidade maior é desenvolver a habilidade de leitura para o aluno ler manuais técnicos, fazer prova de vestibular, etc. Além disso, acredita-se que o desenvolvimento da habilidade leitora na língua estrangeira acaba ajudando a desenvolver a leitura na língua materna e a ampliar a visão de mundo do leitor. Entretanto, não descartam o uso de outra abordagem se a mesma apresentar uma justificativa histórica, econômica, etc. para ser adotada em determinada comunidade escolar.
Além disso, não há uma obrigatoriedade formal de que os caminhos sugeridos pelos PCNs sejam adotados. Consequentemente, não há uma uniformidade de metodologia ou abordagem adotada pelos professores nas escolas da rede pública. A metodologia ou abordagem varia de acordo com as crenças de cada professor…
Quanto aos recursos, esses variam de acordo com a realidade escolar. Os 2 extremos, que acredito serem exceção a regra, podem ser encontrados na realidade da escola pública: a) o professor que só tem a seu dispor o quadro de giz; b) o professor que tem a possibilidade de usar data show nas aulas. Mas de maneira geral, as escolas tendem a oferecer alguns recursos aos professores como quadro branco, TV e DVD (esses dois últimos, às vezes, precisam ser reservados pelo professor para serem utilizados).
Mas voltando à pergunta inicial: O ensino de inglês nas escolas públicas funciona?
Bem, primeiro acho que vale pensar no que entendemos por funcionar…  Se funcionar significar fazer com que a  maioria dos alunos sejam falantes fluentes da língua inglesa. Então diria que não funciona. Mas, se funcionar significar sensibilizar os alunos para o ensino da língua estrangeira, despertar o interesse no aluno para aprender o idioma e poder fazer uso dele em algumas situações: seja no jogo de vídeo game, nos chats online,ou em pequenos diálogos;  então diria que funciona. Não diria que funciona para todos mas, funciona.
As chances de que “o ensino de inglês funcione”  tendem a aumentar no Rio de Janeiro haja visto que a Secretaria Municipal realizou um concurso público para efetivar professores de inglês para ministrarem aulas para alunos do 1o ano do ensino fundamental. E, está oferecendo material e treinamento contínuo a esse professores, o que é uma inovação que com certeza colherá frutos no futuro.
Por último queria dizer que “funcionar ou não funcionar” depende de ínúmeras variáves: das políticas públicas; da visão de ensino público do professor e do aluno; da visão de ensino público da sociedade; da motivação do professor e do aluno; do desejo do aluno em dedicar energia e tempo ao processo de aprendizagem; da auto-estima de professor, enquanto profissional do ensino público; da auto-estima do aluno; das ideologias que reproduzimos, conscientemente ou não, em nossas salas de aula; em fazer com que o aluno tenha um papel mais ativo em sala de aula, entre outros.

E você?  Como reage a estas idéias?

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One thought on “Opinião de Professores de Inglês em Escolas Públicas

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