IATEFL 2015: the Language Debate

Por Natália Guerreiro

Que nível de inglês os professores desse idioma precisam ter?

Essa espinhosa polêmica foi levada ao IATEFL pela Cambridge English em uma mesa moderada por Michael Carrier e que contou com Scott Thornbury, Silvana Richardson, Jeanne McCarten e Monica Poulter como debatedores.

Para contextualizar o debate, é importante ressaltar que a Cambridge desenvolveu uma escala de níveis de proficiência para mapear as competências necessárias para professores e os níveis de desenvolvimento profissional. Como se pode ver neste link da Cambridge English Teaching Framework, a escala conta com a dimensão pedagógica e a dimensão linguística, entre outras. Por enquanto, não há, que eu saiba, nenhuma avaliação atrelada a essa escala, mas creio que não tarde. Afinal, há muita pressão de governos e às vezes da sociedade por indicativos de qualidade dos professores. Todavia, outras instituições já deram a largada: o British Council conta com sua versão do Aptis para professores e, aqui no Brasil, estão desenvolvendo o EPPLE (Exame de Proficiência para Professores de Línguas Estrangeiras).

Voltando ao debate, o primeiro a expor sua opinião foi o Scott Thornbury* que, bravamente, criticou os anfitriões por falar de competência linguística apenas em inglês ignorando a língua materna (L1) do aluno/professor. Ora, argumenta ele, as pesquisas apontam que o uso da língua materna é recurso benéfico para o aprendizado. Por que então desconsiderar o possível domínio que o professor tenha da L1 em contextos em que os alunos compartilham o idioma? Por que discutir essa competência linguística só quanto a professores “não nativos”, se em muitos contextos eles têm a vantagem da L1 sobre os professores “nativos”? Na fala oficial da Cambridge, inclusive do moderador, realmente parecia que os únicos que têm competência linguística a desenvolver seriam os não nativos…

Por sinal, o moderador já tinha aberto o debate dizendo que de 90 a 95% dos professores de inglês no mundo são não nativos. Nessa hora, meus olhos correram a lista dos debatedores: não nativos podem ser 95% no mundo, mas definitivamente não compunham a maioria ali na mesa de debate que a Cambridge montou para discutir “o problema linguístico dos não nativos”. O transcorrer do debate tirou todas as eventuais dúvidas: o moderador nasceu em Manchester; Scott é neo-zelandês; a Silvana trabalha em Cambridge, mas é argentina; a Jeanne é de York; e a Monica cresceu às margens do Rio Tâmisa. Ou seja, quatro nativos de língua inglesa em 5 participantes. Claro que a escolha tem sua justificativa: por ser baseada no Reino Unido, a editora teria mais facilidade de chamar britânicos para o debate em Manchester. E, para ser justa, devo dizer que houve a preocupação de trazer a visão de não nativos (e indianas, que eu não categorizaria assim) a partir de excertos de entrevistas e dos dados abaixo, tirados de um questionário.

Slides apresentados pelo moderador com resultados das pesquisas pelo mundo

Slides apresentados pelo moderador com resultados das pesquisas pelo mundo

Voltando às exposições, a Jeanne bateu sobre a tecla da importância de estudo de corpora para maior clareza do que seria esse domínio alvo, ou seja, o que realmente caracteriza a linguagem que o professor deve ser capaz de usar. Já Silvana e Monica foram bem enfáticas na necessidade do nível do professor dentro da linha da Framework de Cambridge.

O que me surpreendeu, entretanto, foi o momento em que a Silvana foi aplaudida. Em pronúncia quase da Rainha, ela argumentava que, enquanto teoricamente todas as variantes iguais, na prática o nível de inglês pode limitar as oportunidades de qualquer profissional. Até aí, estamos de acordo. E então ela forçou um leve sotaque argentino e defendeu que, com ele, ela não teria sequer passado na prova para professores na Argentina e não teria sido contratada como professora em lugar algum. A plateia aplaudiu, talvez tenha até rido. Eu fiquei me perguntando: que lugares tão discriminatórios são esses que ela conhece? Aqui no país vizinho tem gente com sotaque de tudo quanto é canto dando aula em cursos de renome. Que eu saiba, tem isso de um /s/ num lugar de /z/ negar entrada num curso não… É lógico que há preconceito com sotaques mais carregados, e deve ser ainda pior em países anglófonos, mas não no nível de gravidade que ela parecia descrever, de chegar a ser reprovado em prova ou de não conseguir emprego. Ainda que seja assim séria a situação, para além do que consigo enxergar, a reação é aceitar isso de bom grado e exigir near-nativeness e apagamento das marcas de L2? A reação não deveria ser denunciar a discriminação e lutar contra ela? Enfim, ficou em mim a desconfiança de que, tal qual nas demais críticas contra as pesquisas de inglês como língua franca, os primeiros a quererem manter o padrão da near-nativeness são os próprios não nativos.

Por fim, abriram para perguntas da plateia via microfone ou Twitter. Algumas deixaram os debatedores meio sem resposta, ou com uma resposta meio ansiosa, talvez pelo pouco tempo. De toda sorte, ficou claro que o assunto está longe de ser resolvido.

Ainda bem.

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*Por falar no Scott, ele escreveu um post sobre isso antes de ir para o debate. Imperdível.

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Credit where credit is due: parabéns à Cambridge English por proporcionar o debate!

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Essa foi só minha opinião, lógico. E você, o que achou do debate? Que nível um professor de inglês precisa ter? Pode-se falar de um nível só para todos os contextos? O nível máximo deve ser o nativo idealizado? E o nível em L1 também deve contar? 

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