Follow up do chat sobre escolas bilíngues e internacionais: entrevista com a Profa. Sonia Melo de Jesus Ruiz

No dia 30/04/15, tivemos na comunidade BrELT um bate-papo animado sobre escolas bilíngues e internacionais. Foram muitas as dúvidas que surgiram, e muitos membros pediram que não deixássemos o assunto morrer por aí. Por isso, entrevistamos a Profa. Viviane Bonfim sobre como entrar nesse mercado. Agora a Profa. Sonia Melo de Jesus Ruiz gentilmente nos cede esta entrevista sobre os mitos e modelos das escolas bilíngues e sobre UbD, uma nova forma de planejar aulas.

  1. Qual foi sua experiência em escolas bilíngues ou internacionais?

Minha primeira experiência como professora num contexto internacional e bilíngue foi atuando nas escolas públicas de Framingham (Massachusetts, EUA) onde lecionei por um ano como professora bilíngue de uma turma de 3a série. Eu havia terminado o mestrado em American Studies na UMASS, Boston, onde pesquisei as mulheres brasileiras imigrantes que trabalhavam como faxineiras na cidade. Vi um anúncio no jornal procurando professores com mestrado para trabalhar no departamento bilíngue de Framingham e prontamente enviei meu currículo. Eu queria aproveitar a oportunidade para conhecer melhor o contexto de vida dos imigrantes brasileiros, bem como ter contato com filhos de faxineiras e perceber, de dentro do campo, o Brasil imaginário que construíam nos EUA. Depois, quando voltei ao Brasil, tive outra experiência, numa escola americana regular no Rio de Janeiro, onde fui professora do ensino fundamental e médio no departamento de Estudos Sociais (Brazilian e American Social Studies). Meu acesso também foi através de um anúncio no jornal, não conhecia ninguém da escola, não entrei por indicação. As duas experiências foram muito distintas pois as escolas não só eram estabelecidas em países diferentes, mas também atendiam faixas etárias e contextos socioeconômicos diferentes, sendo a primeira pública e a outra privada, a primeira bilíngue e a outra internacional.

  1. Quais são os diferentes modelos de escola bilíngue?

Primeiro, preciso esclarecer que não sou especialista no assunto, então compartilharei apenas a minha experiência pessoal. Em 2002, quando trabalhei em Framingham, os modelos oferecidos eram o TBE (Transitional Bilingual Education) e o Two-Way. O TBE permitia que o aluno recém-chegado do Brasil (Framingham conta com mais de 200 mil brasileiros imigrantes) não falante da língua inglesa tivesse a oportunidade de aprender os conteúdos do ensino fundamental como ciências, história, matemática, etc. usando o português e o inglês em sala de aula como línguas de instrução. Na 3a série, por exemplo, esperava-se que o inglês fosse falado cerca de 50% do tempo. E isso ia progredindo até que os alunos fossem capazes de acompanhar todo o conteúdo lecionado em inglês em uma turma regular, não bilíngue, até que chegassem à 5a série.  Para tanto, os conceitos eram sempre apresentados na língua materna das crianças, ou seja, em português, e depois os professores facilitavam a transferência do conhecimento aprendido para a língua inglesa. Muitos alunos eram transferidos para as turmas regulares, mainstreamed, antes de chegarem à 5a série, ao alcançarem um nível satisfatório de proficiência em inglês após serem testados inúmeras vezes, via avaliações tanto formativas quando somativas.

O programa Two-Way oferecia aulas do currículo comum tanto em espanhol como em inglês – não havia Two-Way para a língua portuguesa. O objetivo não era usar a língua nativa “temporariamente”, apenas em um período de transição como no TBE, mas promover a fluência nos dois idiomas e a manutenção dos mesmos. Também, diferentemente do TBE, o Two-Way não atendia apenas filhos de imigrantes, mas estadunidenses que desejassem que seus filhos fossem bilíngues.

Aqui no Brasil existem outros modelos que não considero realmente bilíngues. Muitas escolas se dizem bilíngues apenas por oferecerem duas línguas na grade curricular, o português e quase sempre o inglês. Em outras palavras, o que muda é a maior exposição do aluno à língua inglesa, quase sempre, diariamente, mas com propósitos linguísticos apenas. As aulas de matemática, ciências, educação física, continuam sendo ministradas em português, apenas os alunos fazem aulas de inglês mais vezes por semana.

Já nas escolas internacionais, como as escolas americanas e britânicas no Brasil por exemplo, os alunos são imersos no idioma inglês, que é a única língua de instrução (com exceção de aulas de português, e em alguns casos de história e geografia do Brasil, nas escolas que seguem as determinações do MEC e disponibilizam certificados de conclusão validados pelo MEC). Neste caso, os conceitos também são apresentados em inglês, não há a transferência que ocorre nos modelos bilíngues como o TBE.

  1. Durante o chat, você citou dois mitos que aparecem quando falamos sobre essas escolas. Você poderia recontá-los? Há outros mitos em relação às escolas bilíngues e bilinguismo? Quais são?
  • Muitos pais pensam que seus filhos serão mais fluentes por estarem matriculados numa escola onde o inglês é a língua de instrução. Mas isso nem sempre é verdadeiro. Alunos que fazem cursinho duas vezes por semana muitas vezes falam igual ou melhor do que os alunos matriculados em escolas internacionais.
  • As escolas internacionais (pelo menos as que conheço) não seguem modelos de instrução bilíngue, mas sim o de imersão linguística.
  • Nem todos os alunos das escolas internacionais são estrangeiros. Em muitas escolas internacionais a maioria dos alunos são brasileiros, filhos de brasileiros que não desejam, necessariamente, morar ou estudar fora do Brasil. Para muitos, matricular os filhos numa escola internacional é uma oportunidade de oferecer uma educação diferenciada a seus filhos e, em não tão poucos casos, é uma questão de status social, uma vez que as escolas internacionais são caríssimas.
  • Ser professor estrangeiro não significa ser mais qualificado do que um professor brasileiro. Muitos estrangeiros não possuem qualificação validada pelo MEC, o que é lamentável. Além do mais, assim como no Brasil, existem muitas universidades estrangeiras de qualidade questionável. Ser falante nativo de inglês não quer dizer que sabe ensinar o idioma ou no idioma. Muitos professores estrangeiros são recém-formados, ainda inexperientes e encontram na profissão uma oportunidade para conhecerem o mundo, e o Brasil é quase sempre uma opção interessante.
  • Alfabetizar uma criança em inglês, uma criança que fala português como língua nativa, não é um processo simples. Lembre-se que num contexto regular, a criança aprende a escrever o que já sabe falar pois aos 6-7 anos de idade já é fluente em sua língua materna. Se a criança não fala inglês e precisa aprender a escrever um vocabulário que não domina, é no mínimo complicado, sem falar em todas as questões de identidade que cercam a questão do letramento. Faz muito mais sentido ser alfabetizado na língua que a criança fala e transferir o conhecimento ao novo idioma depois.
  • O aluno do programa bilíngue nos EUA não é considerado mais inteligente e capaz por dominar dois idiomas. O que observei é eles são discriminados por não dominarem o inglês. Muitas das vezes, os próprios professores americanos os discriminam, a escola os trata como “segunda categoria”, principalmente pela condição de imigrantes. A primeira vez que vi a abreviação ELL era usada para definir English Limited Learner e não English Language Learner. O que eles não sabem costuma pesar mais do que o que sabem. Por isso, muitos pais não querem que seus filhos participem do programa, e pedem para que entrem já nas turmas regulares onde somente o inglês é a língua de instrução, o que causa muitos transtornos para a criança que se vê obrigada a aprender conteúdos de variadas disciplinas num idioma que não domina.
  1. Você já trabalhou com UbD? Pode nos explicar o que é essa metodologia?

Sim, conheci o UbD na escola americana em que trabalhei no Brasil. A ideia principal do Understanding by Design é planejar as aulas e unidades do currículo tendo como ponto de partida o que desejamos alcançar; ou seja, “planejar de trás para frente” – por isso é também chamado de Backward Design. Por exemplo, se pensarmos em como um culinarista ensina a fazer um bolo na TV, vamos verificar que sempre o resultado final, o bolo pronto, é mostrado primeiro. Depois vemos os ingredientes e o modo de preparo. Assim acontece com o UbD: pensamos em nossos objetivos antes de pensar no conteúdo a ser trabalhado, na metodologia, recursos, etc. Estes objetivos são específicos, mas também gerais – os conhecidos como “enduring understandings”– que apontam para um aprendizado a longo prazo. Sendo assim, o formato de nossos planos de aula reflete esta organização de pensamento e se mostram bem úteis e práticos.

  1. Há algo mais que você gostaria de dizer para os membros da comunidade BrELT?

Gostaria apenas de agradecer a oportunidade de compartilhar minhas experiências com vocês! Quem desejar conversar mais sobre esses e outros assuntos relacionados ao ensino de inglês como língua estrangeira é só me procurar lá no grupo.

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Sonia Melo de Jesus Ruiz é profe192319_1905955494713_4861094_ossora adjunta do departamento de Línguas e Literatura (Inglês) da UERJ, atuante no CAP-UERJ. Após o curso normal em 1994, concluiu graduação em Letras – Português/Inglês pela UFF (2000), História pela UNIVERSO (2009), mestrado em American Studies pela UMASS, Boston (2002 – bolsista da Fulbright) e doutorado em Letras (UFF, 2009). Foi professora da Pós e da graduação de Letras na UFF, Assistente de Ensino da UMASS, Boston, e professora bilíngue das escolas públicas de Framingham, MA, EUA. Recentemente trabalhou como professora de Estudos Sociais na escola americana Our Lady of Mercy School.

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