Follow-up do BrELT chat do dia 28/05/2015: Entrevista com Cristina Tinoco

No dia 28 de maio de 2015, nos reunirmos para discutir sobre as limitações, o uso e o papel do livro didático no ensino de língua inglesa. Foi um chat bastante animado com participações pra lá de especiais. Uma delas foi a professora Cristina Tinoco, que trouxe muita discussão e aceitou estender a discussão em uma entrevista.

Vejam como foi o nosso bate-bola com a professora Cristina Tinoco:

1) Na sua opinião, o que é um bom livro didático (LD)? Como reconhecer um?

Eu diria que o bom livro didático de língua inglesa é aquele que é bem utilizado pelo bom professor. Como o bom maestro, que transforma o resultado final de uma orquestra de qualquer partitura, o bom professor consegue a harmonia perfeita com o material e os alunos que possui – em cada grupo que leciona. O que faz um livro didático de LI ser bom é o que se faz com ele – e principalmente não o ver como o único recurso possível.

2) E se o livro que estou usando não for o ideal para o meu contexto? O que devo fazer?

O bom curso ou programa de ensino de língua inglesa adota o LD de acordo com a abordagem/metodologia que acredita ser a melhor – e geralmente “vende” esse formato para seus clientes – os alunos. Vejo muitos professores insatisfeitos com a proposta do livro, desacreditados de que o aprendizado aconteça daquela forma. É muito importante que o professor procure trabalhar numa instituição que adote a abordagem/metodologia na qual ele acredite – já ajuda bastante. Mesmo assim, o professor sempre será a melhor pessoa para “gerenciar” o melhor uso do material – aproveitando dele o que tem de melhor e adaptando o que precisa ser adaptado de acordo com o grupo que leciona.

3) Durante o BrELT Chat, você comentou que o LD surgiu da hibridação de três gêneros. Você pode elaborar mais sobre isso?

O livro didático de LI, como confeccionado na atualidade, e independente da abordagem/metodologia subjacente, é visto como um enunciado num gênero secundário do discurso – composto pela inserção de textos em diversos gêneros. Esse “manual escolar” surgiu, segundo Bunzen (2005), da hibridação de três gêneros que participavam do contexto de ensino – a seleção de textos, a gramática e a aula propriamente dita. Segundo o autor, neste processo de hibridação, o LD começou a ser dividido em unidades didáticas, organizadas segundo cronogramas escolares e normalização de atividades para o conteúdo de um programa específico.

4) Também no chat você falou que a *aula* deveria estar na mão do professor. Como fazer para que o centro da aula não seja o LD, em sua opinião?

Apesar da polêmica que envolve o uso ou não do livro didático, ele ainda é o núcleo de circulação de conhecimento mais utilizado no contexto de ensino-aprendizagem de língua inglesa – e tem um papel praticamente institucionalizado no contexto de ensino da língua. Existe, no entanto, uma tendência dos LDLI de enfatizarem aspectos linguísticos, como vocabulário e gramática, em detrimento do contexto de produção e organização real da língua – ou seja, os gêneros são ajustados de acordo com uma suposta competência linguística dos alunos – e não dão conta da realidade da língua alvo. Neste momento entra o bom professor, que percebe a necessidade de tais adaptações, visto a incapacidade linguística dos alunos, mas percebe também a necessidade de gerenciar esses momentos absolutamente “escolares” do ensino da língua – trazendo material mais autêntico, ou até discutindo o assunto com os alunos. Lembro-me de uma imagem num livro didático que ilustrava uma vitrine com diversos tipos de roupas. A unidade tinha a proposta do ensino do vocabulário de vestuário e da função de comprar. Perguntei aos alunos se se lembravam das estações do ano – que prontamente listaram as quatro – em inglês! Pedi então que olhassem a vitrine ilustrada e perguntei em qual estação do ano que os personagens do livro se encontravam. Foi um silêncio absoluto. Existiam desde sandálias e shorts até suéteres e botas ilustradas na mesma vitrine. Dividimos então os itens em quatro estações – percebendo quais itens de vestuário participam de mais que uma estação do ano – e a compra-e-venda a partir daí foi carregada de sentido e até expressões sobre o tempo participaram do diálogo. Eu diria que o segredo está no planejamento da aula – quando o professor olha para a unidade do livro e “explora” todas as possibilidades e necessidades de adaptação. Como eu disse – a AULA é do professor!

5) Você poderia nos dizer quais as vantagens de se adotar um LD?

Segundo Magda Soares (2002), as críticas ao livro didático chegam a defender a rejeição e eliminação total dele nas salas de aula, como se o LD fosse uma coisa recém-inventada, de existência indefinida e perigosa – criado para oprimir e submeter os professores – enriquecendo autores e editores. Um erro – pois o livro didático representa o resultado de uma longa história de sucesso e tem um papel importante no contexto de ensino-aprendizagem. Numa grande parcela de situações de ensino, principalmente em nosso país, o LDLI é o único (ou mais importante) contato dos alunos com a língua almejada, e mesmo nos locais com mais acesso a outros “saberes” como sites na Internet, televisão a cabo, DVDS, etc., o livro didático tem a função de sistematizar o conhecimento “escolar”. Quando bem utilizado, vejo o livro didático como um grande aliado do professor e dos alunos nesta difícil façanha de ensinar uma língua estrangeira.

6) Muitos estudos apontam para as marcas ideológicas dos materiais didáticos. Como os professores podem lidar com elas em sala de aula?

“Todos os livros são objetos que comandam se não a imposição de um sentido ao texto que carregam, ao menos os usos de que podem ser investidos e as apropriações às quais são suscetíveis“ (Chartier, 1994). Não existe texto – linguístico ou visual – que seja inocente. Na verdade, por princípio, toda educação é ideológica, não é mesmo? Por isso mesmo, o professor tem um papel fundamental no dia-a-dia do ensino-aprendizagem – ele é insubstituível no processo.

7) Mais alguma coisa que você gostaria de dizer à nossa comunidade?


Gostaria de chamar a atenção para uma maior atenção por parte do professor ao que é visual dentro do LDLI. Segundo Prensky (2001), a geração de hoje pensa e processa informação de uma maneira fundamentalmente diferente. Pertencentes a uma geração digital, os jovens leem imagens antes de ler o texto linguístico (principalmente quando não dominam o que é linguístico – no caso da língua estrangeira) e preferem informações não lineares a informações mais lineares. Logo, os recursos visuais nas páginas do LDLI devem ter uma atenção especial dos professores, visto que a leitura feita pelo aluno pode interferir negativamente no objetivo de ensino proposto pela unidade.

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9807_10204403368897135_277486621707047219_nCristina Tinoco Teixeira tem Mestrado em Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, além de certificado de Especialista em Língua Inglesa, pela PUC-Rio, e é formada em Design pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e em Pedagogia em Língua Inglesa pela Universidade Santa Úrsula. Trabalhou como artista em agências de publicidade e professora de artes na Escola Americana. Foi Coordenadora Pedagógica do curso Dixie Executive Language Programs por 10 anos. Ensina inglês como língua estrangeira há mais de 20 anos.

E-mail: nina.evelyn@gmail.com

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