BrELT no XI CBLA por Eliane Azzari

Este agitado julho teve mais um evento na nossa área: o CBLA (Congresso Brasileiro de Linguística Aplicada), que ocorre a cada dois anos e é organizado pela ALAB (Associação de Linguística Aplicada do Brasil). Eliane Azzari, querida membro da BrELT, esteve lá e conta para nós como foi o congresso. Dentre os temas de interesse, foi discutida a questão do status do inglês no mundo e nas universidades brasileiras. E porque cada vez mais se estudam diversos contextos de uso da língua, teve até professor universitário pondo funk para tocar… PRE-PA-RA!

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Linguística Aplicada para além das fronteiras ou “o show das poderosas”

por Eliane Azzari

Entre 13 e 17 de julho, estive com outros linguistas aplicados de todo o Brasil – e alguns visitantes de outros países – reunidos na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) para dialogar, problematizar e instigar discussões em torno das relações entre linguagem, educação e sociedade durante o XI CBLA. Em pauta: o papel da investigação em Linguística Aplicada (LA) para além das fronteiras – algumas literais e evidentes, outras nem tanto assim, mas todas igualmente relevantes – do ensino-aprendizagem, da formação de professores, da pesquisa acadêmica e dos currículos, materiais e fazeres didáticos na educação linguística em nosso país. As discussões focalizaram os mais diferentes contextos, navegando pela educação básica (privada e pública), pelo ensino superior e a formação pré e em serviço de professores de línguas, entre outros.

A Linguística Aplicada (que – para aqueles não familiarizados com a área – não é uma “aplicação” da Linguística), de natureza essencialmente transdisciplinar (e como proposto em vários dos discursos circulados nesse Congresso – transgressiva) propõem-se a dialogar com outras disciplinas. Dentre elas, as teorias linguísticas de diversas orientações teóricas; a antropologia; a psicanálise, a pedagogia e (quaisquer) outras áreas do conhecimento que possam contribuir para a investigação, o entendimento e, especialmente, a discussão e a problematização das questões ligadas à educação linguística e suas interfaces com a sociedade, a formação de cidadãos e as políticas (linguísticas e educacionais) públicas.

Dentre as temáticas abordadas nas mesas debatedoras estavam o plano nacional do livro didático (PNLD); o ensino-aprendizagem de línguas, as construções de sentidos e as práticas transgressivas; questões de linguagem e gênero, raça, sexualidade e etnias; a internacionalização, e a interface linguagem e (novas) tecnologias e culturas digitais.

Durante as palestras, pesquisadores nacionais e internacionais trouxeram à pauta questões relacionadas à formação (pré-serviço / contínua) de professores de língua materna e estrangeira (em especial a língua inglesa) e às práticas críticas e transgressoras decorrentes de perspectivas contemporâneas da linguagem e sua interface com a educação-sociedade. Nessa visão, há lugar reservado para o diálogo trans e também interdisciplinar, em favor de uma educação linguística que rompa com visões e práticas (antigas e consolidadas), dentro e fora de ambientes escolares, que reforçam diferenças; (pré)conceitos e relações de poder que, mediadas e reafirmadas por meio de práticas sociais letradas, mantém a exclusão e os desequilíbrios sociais.

As comunicações (orais e em pôsteres) projetaram um painel estado-da-arte de mais de 700 pesquisas recentes, realizadas por professores e alunos de graduação e pós-graduação de todo o Brasil, relatando a preocupação e o interesse em entender, visibilizar, discutir e propor possíveis saídas e caminhos para questões de extrema relevância para a educação linguística e o papel do formador-gestor-professor de línguas na atualidade. Por meio dessas comunicações, foi possível traçar e observar retratos de variados contextos educacionais nacionais (e alguns também internacionais), em um precioso e necessário relato, misto de realidades conflitantes; projetos e procederes inspiradores; ideias instigantes e, acima de tudo, incompletudes.

Ainda foi possível, antes da abertura oficial do evento, participar de minicursos gratuitos com importantes representantes nacionais e internacionais da pesquisa em LA, pesquisadores focados em algumas das temáticas que destaquei acima, tais quais os (multi)letramentos e a criticidade na formação docente e no papel e uso de tecnologias digitais no ensino-aprendizagem de línguas e o caráter translíngue do inglês contemporâneo. Desses momentos, destaco, a discussão proposta durante mini-curso em 14/07, ministrado pelo Prof. Dr. Alistair Pennycook, renomado pesquisador da área.

A partir de exemplares linguísticos observados em diferentes paisagens em diversos países por que passou, e sob a orientação sociolinguística e do letramento crítico, Pennycook polemizou a existência de um emergente “English from below”. A partir de práticas que (para outros pesquisadores como Blommaert e Canagarajah poderiam ser chamadas de translíngues) exemplificam uma língua inglesa hibridizada, mestiça, situada em panoramas de diversidade, imigração e, também, contextos como a sala de aula de língua inglesa, o pesquisador trouxe exemplos desses ingleses que desafiam outras variantes, como a chamada norma culta. O termo proposto “from below” gerou certo desconforto entre os participantes do mini-curso que questionaram, por exemplo, se a afirmação de binarismos (from above x from below) não estaria reforçando (ainda mais) preconceitos linguísticos mediante esses ingleses que circulam na atualidade globo-local. A discussão situou esses ingleses em diversos contextos  em que as práticas sociais revelam o quanto a língua inglesa falada hoje está cada vez mais distante de sua “terra natal” e, portanto, afetada (em termos estruturais, lexicais e fonológicos) pelas outras tantas línguas que a permeiam nesses contextos.

Outro destaque fica para a mesa composta pelos professores-doutores Cláudia Hilsdorf Rocha, Lynn Mario Menezes de Sousa e Clarissa Jordão, que discutiram o papel da LA para além das fronteiras da internacionalização, processo que atinge as universidades de todo o país e marcado por projetos do MEC como o Idiomas sem Fronteiras (IsF), conectado ao Ciência sem Fronteiras. De maneira clara, precisa e pertinente, a mesa debatedora demonstrou, com suporte de teorias e de programas implementados, o caráter mercadológico assumido pelo inglês mediante tais projetos, o que retoma a característica de commodity assumida por essa língua, tornando-a um “bem de consumo” almejado pelas mais diversas áreas do conhecimento que, por sua vez, recorrem ao profissional de Letras (língua estrangeira) como um fornecedor de um produto em destaque – características marcadamente neo-liberalistas. A discussão ganhou forte adesão da plateia presente, que aplaudiu entusiasticamente as problematizações trazidas pelos pesquisadores da mesa debatedora.

E, por fim, destaco a mesa composta pelos professores-doutores Miriam Jorge, Danie M. Jesus e Luiz Paulo da Moita Lopes, sobre o tema “LA para além das fronteiras: linguagem, gênero e raça”. A mesa trouxe à pauta importantes questões tais quais a presença, ainda insistente, do preconceito e da intolerância à diversidade e à diferença, manifestada, por exemplo, por intermédio das redes sociais, bem como notabilizou que ainda é preciso muito trabalho e discussão em relação à posição assumida pela educação linguística (por intermédio, por exemplo, de materiais didáticos) mediante tais questões. Moita Lopes, um dos grandes nomes da pesquisa em LA em nosso país, começou sua fala com um título elaborado e rebuscado, que não ouso aqui tentar reproduzir. Mas, para alívio (e entretenimento) dos presentes, imediatamente sugeriu “ou também, O Show das Poderosas” como título alternativo para sua fala na mesa debatedora.

Sem dúvida, ao terminar sua exposição com um vídeo de jovens filipinos dublando e coreografando um funk da cantora Anita, que se tornou viralmente notório nas redes sociais recentemente, Moita Lopes me fez (re)pensar quão rígidas podem ainda ser as fronteiras mediadas / construídas / consolidadas pelas línguas nos contextos escolares e escolarizados, enquanto há contextos em que as  práticas sociais letradas tidas marginais (ou será from below?) desafiam quaisquer tipos de fronteiras – físicas e/ou subjetivas – revelando o papel transgressor inato do ser falante que, translinguisticamente – refuta, ainda que inconscientemente, a ideia essencialista de “uma língua pura; uma cultura específica”. Afinal, as língua(gens) são híbridas desde seus berços e, portanto, não podem se submeter às impostas fronteiras uma vez que são, por princípio, elas mesmas as poderosas do show.

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Mesa redonda: LA e Internacionalização. Com os professores Lynn Mario Menezes de Souza (USP), Cláudia Hilsdorf Rocha (Unicamp) e Clarissa Jordão (UFPR).

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Obs.: O vídeo das mesas debatedoras ficará disponível em breve no site do evento. Olho vivo!

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elianeEliane F. Azzari é professora da faculdade de Letras da PUC Campinas e doutoranda em Linguística Aplicada (Linguagem e Educação – linha de pesquisa: linguagem e tecnologia) pela Unicamp. Apaixonada pelo ensino e a formação de professores, há 29 anos trabalha com EFL no Brasil e já ministrou cursos de inglês em escolas regulares da Educação Infantil ao Ensino Médio, em empresas e em escolas de idiomas. Possui Mestrado em Linguística Aplicada na área de Língua Estrangeira pela Unicamp e os certificados ICELT e CPE pela Cambridge University. Seus interesses de pesquisa se concentram especialmente na formação de professores de línguas; avaliação e desenvolvimento de materiais didáticos impressos e digitais e o ensino de línguas na escola pública, orientando-se a partir  dos (multi)letramentos críticos. Para acessar algumas de suas publicações,visite https://unicamp.academia.edu/elianeazzari.

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