Follow-up do BrELT Chat de 08/10/15: A baixa autoestima é da natureza do aluno?

12118686_10153000174971577_1901844583429141733_nNa última quinta-feira, tivemos um BrELT Chat super interessante sobre alunos com baixa autoestima. Você pode ler a conversa aqui ou um resumo neste link.

Convidamos a psicóloga Juliana Póvoa para explicar melhor a questão da autoestima, e ela deixou um breve comentário, que replicamos abaixo. Ela nos lembra que, numa perspectiva sócio-histórica, não cabe naturalizar a autoestima, ou seja, achar que a baixa autoestima “é do aluno mesmo, ele é assim, coitadinho”.  A autoestima é resultado de experiências sociais e, por isso, pode ser modificada por vivências em sala de aula. Ou seja, nós como professores podemos, sim, atuar sobre essa questão, porém não de forma isolada da escola.

Com a palavra, Juliana:

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Uso para minha prática na psicologia o referencial sócio-histórico (Vygotsky). Nele a questão da autoestima é entendida como uma construção sócio-histórica.

A psique é formada a partir de uma interseção entre a gênese e o ambiente.

Adriana Franco escreveu um artigo muito interessante em que ela discute a autoestima dos alunos:  

“desde o nascimento, o homem encontra-se cercado por atribuições de valores positivos e negativos; a autoestima é, então, vista enquanto uma valoração que o sujeito faz do que ele é, sendo construída nas relações que mantém com o mundo.”

Para a Psicologia Sócio-histórica, a autoestima não é natural, dada ou inata ao homem. Ela surge a partir de sucessivas significações dadas as situações vividas ao longo da vida, ainda que as significações, em muitos casos, sejam contraditórias e nem sempre claras: as observações dos pais, as idealizações familiares, a atuação e a narrativa dos professores  todos os fatores influentes, como as expectativas sociais.

Para Vygotsky, se a vida oferece novas circunstâncias, nas quais tais significações podem ser alteradas, a consciência de si pode sofrer alterações de vulto, imprimindo novas marcas. Isso ocorrerá também no que se refere à apreensão que os alunos fazem acerca da sua capacidade de aprender.

Em seu livro Pensamento e linguagem (1987), Vygotsky vai, ao longo do texto, estabelecer que o desenvolvimento da psicologia humana se dá com base em uma crescente apropriação dos modos de ação culturamente elaborados. Assim, para Vygotsky, o processo de internalização é o resultado do contato social (onde o ‘eu’ encontra os ‘outros’). O termo internalização é utilizado para demonstrar a reconstrução das funções existentes no plano interpsíquico. A atividade internalizada (cuja origem é material) é a atividade significada e não a atividade em si. Desse modo, a conversão do social em pessoal é um ‘delicado e complexo’ processo semiótico.

Dessa forma, o professor pode ter um papel ativo na (res)significação dessas experiências que ‘formam’ a autoestima. Mas devemos ter a consciência de que não é possível transformar a autoestima fora de sua trama social. Franco, em seu texto, coloca que a escola é um local importante de humanização, ou seja, de construção da consciência, tanto em seus aspectos cognitivos (apropriação crítica de conteúdos e operações), como afetivos e éticos.

No artigo ‘A importância da autoestima do aluno no processo de ensino-aprendizagem‘, Teixeira e colaboradoras colocam que:

“Os professores, os pais e aqueles que exercem papel de liderança na vida do educando têm o dever de exercer essa liderança da melhor maneira possível, pois a estes cabe a mais valiosa tarefa que é a de inserir esses sujeitos no contexto social.”

Os professores deveriam ser, portanto, ‘Líderes Educadores’. As autoras fazem ainda uma conexão entre motivação e autoestima. O professor pode ‘auxiliar na transformação’ da autoestima de seus alunos se for capaz de usar as ferramentas corretas.

Vygotsky sugere aos professores buscarem apropriar-se das práticas culturalmente estabelecidas, .discutindo e revelando o ‘secreto e o velado’. Vejo o papel do professor como aquele que auxilia o aluno no processo de desconstrução. No texto de Teixeira e colaborados, as autoras colocam que para Vygotsky a importância do outro não está só no processo de construção do conhecimento, mas também de constituição do próprio sujeito e de suas formas de agir.

As autoras concluem da seguinte forma:

“percebe-se que não se pode apontar um único responsável pela questão do fracasso escolar decorrente da baixa autoestima e desmotivação. Tal questão está inserida em um contexto escolar emblemático, em que vários fatores contribuem para este problema. Procurou-se apresentar algumas possíveis práticas que possibilitem a construção da autoestima do aluno, auxiliando, desta maneira, a aprendizagem eficiente e significativa. Conclui-se, portanto, que se faz necessário e urgente encontrar caminhos para que num breve futuro se possa vislumbrar uma escola sonhada por todos aqueles que entendem que a educação é a única via de transformação da sociedade. Deve-se acreditar que algum dia existirá um interesse de fato por parte das políticas públicas para a educação, que priorize a necessidade de oferecer escolas de qualidade de forma democrática e justa, e que, sobretudo olhem seus alunos como de fato são: seres individualizados, com suas singularidades. Um caminho possível para uma educação de excelência necessariamente requer a consciência de que uma nação só se constrói com uma educação de qualidade e igualitária.”

Referências:

Franco, A. (2009). O mito da autoestima na aprendizagem escolarRevista Semestral da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional (ABRAPEE), 13 (2), 325-332.

Teixeira, AC.; Rubio, L.; Chaves, S.; & Silva, D.M. (2014). A importância da autoestima do aluno no processo de ensino-aprendizagemRevista Interação, 1 (2), 20-37.

Vygotsky, L. (1987). Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes.

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ju Juliana Póvoa é psicóloga, especialista em psicopedagogia e possui MBA em Gestão de Pessoas. Atualmente é Oficial Temporária da Marinha do Brasil, tendo sido por sete anos encarregada do Serviço de Orientação Educacional da Escola Naval. No momento é chefe da Seção de Treinamento & Desenvolvimento da Escola Naval. 

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