BrELTers pelo Mundo #1: entrevista com Luiza Mota – Colômbia

whatsapp-image-2016-11-03-at-19-22-50-1

Recentemente, a comunidade BrELT manifestou grande interesse em saber de oportunidades para brasileiros lecionarem no exterior. E com a curiosidade, vêm as dúvidas: O que precisa ter de experiência, qualificação e documentação? Será que dá pé? E vale a pena? Qual é o caminho das pedras?

Como o maior recurso da BrELT são os seus membros, resolvemos tirar as dúvidas com os próprios BrELTers que temos espalhados aí pelo mundão, do vizinho Uruguai à longínqua China. E com isto surgiu esta série de entrevistas que começa hoje com Luiza Mota, professora carioca que está em seu segundo ano de Bogotá, Colômbia.

*******************

1. Há quanto tempo você trabalha nesse local e quais suas funções? 

14963461_10154520225480575_1642217701_o

Luiza Mota, BrELTer na Colômbia

Trabalho no Gimnasio Femenino desde abril de 2016, tanto no Middle Years Programme, que seria nosso Fundamental 2, como no Diploma Programme, com alunas de 16 a 18 anos. Aqui sou professora da área de línguas modernas. As disciplinas que ensino são Português B e Inglês A. Como é uma escola do IB (nota da BrELT: International Baccalaureate, saiba mais aqui), essas denominações A e B se referem a L1 (A) ou língua estrangeira (B). Ou seja, eu sou professora de português como língua estrangeira e de inglês (language, literature and writing)  como L1, já que as alunas já são fluentes na língua inglesa desde a escola primária. Além de dar aula, eu também sou responsável pelo desenvolvimento dos planejamentos anuais e por montar toda a malha curricular de Português, uma vez que este é o primeiro semestre em que a língua está sendo ensinada como matéria obrigatória no colégio. Está sendo um grande desafio, algumas (muitas) noites mal dormidas, mas uma experiência incrível.

2. Você teve outras experiências de trabalho fora do Brasil ou aí mesmo em Bogotá?

Quando cheguei em Bogotá em julho de 2015, trabalhei como professora de inglês e assistente de relações internacionais na Escuela Colombiana de Ingenieria. Aqui na Colômbia, para se formar em qualquer curso superior, o aluno é obrigado a atingir o nível B2 em língua inglesa. A minha função era preparar os alunos dos cursos de Engenharia, Administração de Empresas e Matemática para esse desafio. Também auxiliava o setor de relações internacionais da universidade em fazer contato com universidades estrangeiras. Foi bastante interessante essa parte do trabalho, de estar em contato pessoal com representantes das melhores universidades do mundo. Trabalhei lá de julho de 2015  a maio de 2016, quando decidi dedicar-me inteiramente à docência no colégio que, além de representar um grande crescimento profissional, é a minha verdadeira vocação.

3. O que te levou a procurar emprego fora do país? E por que essa cidade e país em especial?

Sou filha de comissários de bordo e cresci viajando o mundo. Isso não apenas despertou meu interesse por línguas e história como me fez perceber desde muito cedo que, para realmente entender o mundo, deve-se conhecê-lo in loco. Eu sempre fui fascinada pela América Latina e sentia que me faltava conhecimento sobre nosso continente antes de começar meu mestrado, o qual pretendo enfocar na educação dentro dos países latino-americanos. Assim, decidi passar um ano fora do Brasil trabalhando com alunos falantes de espanhol e aprendendo esta difícil língua da qual eu não sabia mais do que “Hola ¿que tal?”. Consegui o trabalho na universidade antes de chegar a Colômbia através de um site anúncios e cheguei a Bogotá com a cara e a coragem (eu não tinha nem onde morar, fiquei a primeira semana em um hotel enquanto buscava apartamento). Por que a Colômbia? Por que este país oferece boa qualidade de vida, ótimas oportunidades de emprego para estrangeiros e reúne características que outros países latinos, como México, Venezuela, Equador, Bolívia e Peru (guardando as devidas e importantes individualidades obviamente). A Colômbia é um grande resumo de boa parte da América Latina, e Bogotá é uma metrópole, apesar de caótica, apaixonante. A ideia era ficar um ano e já estou completando o segundo.

4. Quais os requisitos que você precisou cumprir para conseguir esse emprego, em termos de qualificações, certificações, experiência prévia, etc.?

A universidade me exigiu apenas o diploma de graduação em Letras (eu fiz Português-Literaturas) e experiência de um ano na área. Era um posto de assistente, assim não precisei de tantas qualificações. A minha ideia era ter um trabalho garantido para chegar no país e, aí assim, buscar algo melhor se decidisse ficar mais tempo. Já no colégio foi um pouco mais difícil. Me exigiram mais tempo de experiencia na área (pelo menos 3 anos comprovados), o CELTA, o diploma de graduação em Letras e muitas muitas muitas entrevistas. Mas tampouco foi algo impossível. Infelizmente a qualificação do profissional na Colômbia é ainda pior que no Brasil. Muitos cursos de inglês buscam os famosos “gringos mochileiros”, então não é difícil encontrar trabalho. Já para encontrar um BOM  trabalho que te faça realmente crescer como profissional… aí se requer um pouco mais.

5. Quais foram os requisitos em termo de documentação? 

Cidadãos brasileiros têm direito a um tipo especial de visto na Colômbia. O visto TP-15, chamado também de “Visa Mercosur”, lhe dá direito a trabalhar e estudar na Colômbia por 2 anos e é renovável. O requisito é o seu histórico criminal traduzido por um tradutor juramentado, cópia do seu passaporte com a última entrada na Colômbia e pagar um taxa. No site da cancilleria colombiana (http://www.cancilleria.gov.co/) estão todas as informações, não é difícil. Todo trabalhador na Colômbia tem que estar afiliado ao sistema de saúde EPS. Isso se faz depois que você já está empregado e te descontam em folha 6% de seu salário.

6. Como você ficou sabendo da vaga? Há algum site específico para saber de vagas na Colômbia?

Fiquei sabendo através de amigos que me indicaram a vaga. Muita gente chega à Colômbia através da AIESEC. Se você é ainda estudante de graduação ou recém-formado, pode ser uma boa opção, mas os salários dessas vagas não são muito bons. Eu recomendo o site computrabajo.com.co, que é o maior site de empregos daqui da Colômbia. Mas principalmente ficar ligado em colegas que já estejam trabalhando fora. Eu, por exemplo, já anunciei umas 3 vagas em grupos do Facebook, inclusive na BrELT.

7. Tendo em vista o custo de vida, a remuneração é compatível, inferior ou superior ao que você recebia no Brasil?

A remuneração que recebo hoje é maior que a que recebia no Brasil (e no Brasil eu trabalhava em três lugares diferentes, aqui em apenas um) . Mas o colégio em que trabalho é reconhecido por seus excelentes salários e benefícios. Normalmente o salário na Colômbia é MUITO mais baixo que no Brasil. Os colombianos infelizmente são conhecidos por terem um dos níveis salariais mais baixos da América Latina. Por outro lado, o custo de vida também é bastante baixo. Eu vivia bem aqui, pagava contas, fazia umas comprinhas, comia em restaurantes, viajei muito dentro do país (inclusive de avião para cidades como Cartagena, San Andres e Medellin) com um salário de 2.000 reais (meu primeiro salário quando cheguei na Colômbia), coisa que na minha cidade natal (Rio de Janeiro) seria impossível.  Hoje, com um salário maior, já consigo até fazer umas economias.

8. Você sofreu algum preconceito por ser não nativa?

Muito pelo contrário. Os estrangeiros são praticamente endeusados aqui na Colômbia. Às vezes dá até um pouco de vergonha, eu não sou tão boa assim.

(Nota da BrELT: We beg to differ.)

9. Como está sendo a experiência de trabalhar nesse país sendo brasileira?

Apesar da saudade e de detestar o frio (a temperatura média anual em Bogotá é de 10 graus, neste momento está 3 graus a 1 da tarde), eu posso afirmar que foi a melhor decisão que já tomei profissionalmente. As oportunidades são incríveis, as pessoas super receptivas, a cidade oferece muitas opções, minhas alunas e meus colegas são super interessados no Brasil e na língua portuguesa. Algo que se passou comigo é que, apesar de eu nunca ter tido o “complexo de vira-lata brasileiro” e sempre ter tido muito orgulho do meu país, aqui o meu amor pelo Brasil cresceu ainda mais. A gente começa a ver que outras pessoas no mundo nos admiram. Muitos colombianos sabem mais do Brasil que os próprios brasileiros. A única coisa que eu não recomendo é falar de futebol. Eles ainda não superaram a eliminação da copa de 2014 e levam sempre pro lado pessoal. Brasil x Colômbia aqui é um dia tenso para mim.

10. Você passou por alguma situação inusitada em sala de aula por não compartilhar a cultura/língua dos alunos?

Houve alguns momentos engraçados, principalmente quando eu ainda não sabia muito espanhol, em que disse palavras inapropriadas, mas nada que me colocasse em situações embaraçosas. No máximo algumas risadas. Aqui no colégio internacional, quando as estudantes se dão conta de que eu falo espanhol, é sempre uma surpresa seguida de muitas risadas. Todos dizem que tenho “espanhol da Selena Gomez” (referência a um comercial da Pantene em que a Selena Gomez fala espanhol, não sei se passa no Brasil), ou seja, um sotaque gringo vergonhoso.

11. Qual conselho você daria a professores brasileiros que querem trabalhar no mesmo país em que você está?

Que venham! A Colômbia é um país maravilhoso. Mas venham sabendo que não é um país para ganhar dinheiro. Como disse, os salários aqui são baixos. Você viverá bem, com boa qualidade de vida, mas, se o seu objetivo é levar dinheiro ao Brasil, esqueça. Já se você busca crescimento profissional e pessoal, eu recomendo muito.

12. Algo mais que você queira dizer aos BrELTers?

Gostaria de agradecer à BrELT pelo convite e pela oportunidade de compartilhar a minha experiência com vocês. Para finalizar, queria ressaltar a importância do diálogo, da troca de experiências e da qualificação constante. Nossa profissão, apesar de pouco valorizada, pode ser muito realizadora e gratificante. É possível sim se realizar profissionalmente na edução, e o mundo necessita de educadores com vontade. Pensem fora da caixa: estar em sintonia com a Europa, Canadá e Estados Unidos é muito importante e inevitável em nossa sociedade, mas a América Latina tem muito a oferecer e pode ser uma experiência. espetacular tanto na carreira como no âmbito pessoal.

******************************

Luiza, agradecemos por interromper seu dia a dia frenético para nos elucidar as muitas dúvidas e curiosidades. Realmente a Colômbia parece um destino e tanto. ¡Muchas gracias!
Nossos agradecimentos também a Eduardo de Freitas pelo lindo pôster que vai ilustrar esta série. 

Para conhecer mais BrELTers pelo Mundo, clique aqui.

4 thoughts on “BrELTers pelo Mundo #1: entrevista com Luiza Mota – Colômbia

  1. Pingback: BrELTers pelo Mundo: entrevista com Luiza Mota – Colômbia — #BRELT – www.jgbsproducoes.com

  2. Pingback: BrELTers pelo Mundo: entrevista com Cintia Costa – Canadá | #BRELT

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s