BrELTers pelo Mundo #4: Danilo Ribeiro – Rússia

whatsapp-image-2016-11-03-at-19-22-50-1Dar aula de inglês na Rússia é uma fria? O paulistano Danilo Ribeiro, do blog https://daniloribeiroelt.wordpress.com/, garante que não. Pelo contrário, fora a saudade do nosso clima tropical, ele está curtindo muito o desafio de ensinar inglês em uma escola de idiomas em Moscou.

  1. Há quanto tempo você trabalha nesse local e quais suas funções?

Comecei a trabalhar na BKC-International house em setembro de 2016 e, além de corrigir provas, aplicar testes de nivelamento, e organizar eventos, eu dou aula para Young learners e very Young learners, ensino literacy skills, preparo alunos para exames internacionais de Cambridge e dou aulas para adultos.

  1. Você já trabalhou em outros locais fora do Brasil?

Nunca. Essa é a minha primeira experiência fora do Brasil. Porém trabalho como professor língua inglesa há mais de 5 anos. Dei aulas em vários institutos de idiomas na cidade de São Paulo, assim como dei aulas particulares também.

  1. O que te levou a procurar emprego fora do país? E por que essa cidade e país em especial?

Desde que comecei a trabalhar como professor de língua inglesa, busco sempre me colocar em situações novas e/ou desafiantes. Faço isso não para provar para outros professores que sou melhor que eles. Pelo contrário, não gosto da “mesmice”. Gosto do novo. Gosto do desafio. Gosto de sair da minha zona de conforto. Sair do Brasil significa batalhar, errar e acertar, adaptação, e todos esses ingredientes sempre foram meu combustível na busca de uma oportunidade fora do meu país. Antes de decidir ir para Moscou, eu estava em um outro processo seletivo pela International House, para ir para Lima, Peru. Conforme mencionei antes, gosto do novo, e queria algo que fosse realmente mudar a minha forma de ver o mundo e também ensinar. Por esses dois motivos, escolhi Moscou, capital da Rússia, que é famosa por ter sido sede da URSS. Moscou tem história, tem arte, tem modernidade, tem beleza e é na Europa. Tudo bem que não é dentro da União Europeia, mas uma oportunidade dessa é rara, por isso decidi agarrar e não largar.

  1. Quais os requisitos que você precisou cumprir para conseguir esse emprego, em termos de qualificações, certificações, experiência prévia, etc.? 

    2016-10-02 15.28.39.jpg

    Danilo Ribeiro na Rússia

Para trabalhar especificamente na BKC-IH Moscow, eles procuravam um professor com diploma universitário, preferencialmente na área de ensino de língua inglesa, linguística ou inglês. Como sou formado em tradução e intérprete PT-EN-PT, acredito que a graduação foi um ponto positivo. Eles pediam CELTA + 2 dois anos de experiência pós CELTA e a certificação de proficiência em língua inglesa. Como eu tenho ICELT, sou examinador oral pela Cambridge ESOL, e tinha experiência em diversos contextos, fui convidado para entrevista via Skype.

  1. E como foi o processo seletivo da vaga?

Após ser convidado para a entrevista, o primeiro passo foi comprovar todas as minhas qualificações: enviei por e-mail uma cópia de todos os meus certificados, duas referências escritas por alguém que já foi responsável por mim ou me observou, e uma cópia do passaporte. Após comprovarem que todas as certificações eram reais, me enviaram o pre-interview task. Nessa tarefa, me deram uma contexto e um tópico gramatical. Tive que escrever um lesson plan completo com language awareness sheet e anticipated problems and solutions. Agora vem a segunda etapa: a entrevista. A entrevista por Skype foi dividida em duas partes. Na primeira parte, eu e a director of studies conversamos sobre o meu lesson plan. Ela fez perguntas, pediu explicações e me contou algumas situações de em sala de aula para que eu pudesse resolver ou apresentar soluções. A segunda parte da entrevista foi nomeada de ‘language awareness questions’ onde ela fez algumas perguntas sobre a gramática da língua. Algumas das perguntas foram What is a verb? Why can’t we say very delicious? What’s the difference between ‘their’, and ‘they’re’/ ‘your’, you’re’? What is a modal verb? Give two examples. What are three ways to express future in English? – Após passar na entrevista, tive que aguardar para tirar o visto no Brasil e me mudar para Moscou.

  1. Quais foram os requisitos em termo de documentação?

A empresa forneceu todo o suporte para eu emitir o visto no Brasil. Para trabalhar legalmente em Moscou, não tive problemas com o visto. Aqui no Brasil precisei dos seguintes documentos: passaporte, carta-convite emitida na Rússia, formulário online impresso com foto 6×4 (sim, 6X4!), atestado de antecedentes criminais emitido pela polícia federal (o emitido pela internet não serve), e um exame de HIV. Levei tudo ao consulado geral da Rússia no Brasil, paguei a taxa de R$235, e em dois dias meu visto de trabalho foi emitido. Lembrando que a passagem de avião só deve ser comprada assim que seu visto for emitido, pois pode ser que seu visto de trabalho seja negado.

  1. Como você ficou sabendo da vaga? Há algum site específico para saber de vagas nessa empresa?

Como sempre admirei a International House, eu achei a proposta no site International House Jobs (http://job.ihworld.com/). Nesse site, todas as escolas afiliadas postam as oportunidades. Vale a pena dar uma olhada. Uma dica: nem sempre as oportunidades dentro da União Europeia vão ser as melhores. Às vezes é só o contrato: não tem acomodação, nem reembolso de voo — como eu tenho e tive aqui na IH Moscow. Tem que ficar atento a esses detalhes. Sem contar que o job description não tem linguagem discriminatória. E lembre-se: o mundo tem mais de 150 países, não só a União Europeia. Think outside the box!

  1. Tendo em vista o custo de vida, a remuneração é compatível, inferior ou superior ao que você recebia no Brasil?

Muitos dos meus colegas de profissão e amigos me perguntaram se vale/valeu a pena. E eu digo sim. No Brasil, eu tinha que pegar metrô, ônibus, morava em Itaquera (um salve para meus amigos sofredores da ZL =) ), não tinha minha privacidade. Gastava mais de 3 horas por dia dentro transporte. Acordava às 5h da manhã. Dava aulas particulares, trabalhava em duas escolas. Aqui em Moscou, trabalho a exatos 2 minutos da escola. Se eu correr, chego em um minuto. Não preciso de metrô, e caso precise, o metrô de Moscou te deixa em qualquer lugar. Eu acordo todos os dias às 9h, começo a trabalhar às 15h30 TODOS os dias. E o salário? Conseguiria, sim, ganhar a mesma quantidade no Brasil, porém, ia gastar com transporte, aluguel… aqui não tenho gasto com transporte, nem com aluguel. Em outras palavras, com o salário, consigo viver bem, ir a museus, bares, shopping e guardar um pouco para futuras viagens!

  1. Você sofreu algum preconceito por ser não nativo?

Não. Não sofri nada. Pelo contrário, fui bem recebido pela escola e pelos meus alunos. Aqui na IH Moscow, trabalham comigo dois brasileiros. Tem chinês, boliviano, italiano, russo, coreano, polonês… tem tanta diversidade! Fico emocionado ao ver que a International house não escolheu pessoas pelo passaporte, mas sim pelas qualificações e experiências. Tenho orgulho em fazer parte dessa comunidade internacional de professores!

  1. Como está sendo a experiência de trabalhar nesse país sendo brasileiro?

A minha experiência tem sido muito positiva. O choque cultural é inevitável, porém ele tem sido fundamental no processo de autoconhecimento. Percebo a cada dia o quão brasileiro eu sou, e o amor que tenho pela minha nação. Em geral, não tive problemas nenhum para me adaptar ao estilo russo de se viver. Recebi muitas perguntas sobre a comida e, honestamente, não vi muita diferença. Não sinto falta da comida brasileira. Apesar de não falar russo, consigo falar algumas expressões básicas para não passar fome, e ao perceberem que não falo a língua, muitos tentam me ajudar, apontam, sorriem. Quando contei aos meus alunos que era brasileiro, eles ficaram encantados. Primeira semana foi só respondendo perguntas sobre o Brasil. Porém, abdiquei minha liberdade de expressão para ter uma experiência cultural rica. Quando me mudei para Moscou, soube que feminismo não é muito bem-vindo. Gays não podem se expressar. Os russos são conservadores. Mas em vez de ficar remoendo o que eu não posso fazer, decidi aproveitar tudo o que essa cidade tem a me oferecer. Um dia, pretendo me tornar um teacher trainer e acredito que todas essas experiências estão sendo fundamentais na consolidação da minha profissão e na minha formação como treinador. Vai levar um certo tempo até esse dia chegar. Até lá, pretendo ter vivido muitos choques culturais!

  1. E as oportunidades de desenvolvimento profissional?

A International House tem uma política de desenvolvimento de professores bem legal. Aqui em Moscou, todo terceiro sábado do mês, todos os professores se reúnem no que chamamos de Saturday seminars, em que professores e teacher trainers compartilham ideias práticas para a sala de aula. Inclusive já dei palestras nesse evento a convite do departamento de teacher training. Aqui tem CELTA, DELTA, YLE teaching certificate. Atualmente eu estou fazendo o Certificate in Advanced Methodology, cujo objetivo é preparar o professor para o DELTA modulo 1, rever conceitos básicos do CELTA e dar oportunidades para o professor experimentar com metodologias, e fazer pesquisa. Sem contar que eu estou me familiarizando com o state exams, que os alunos prestam quando estão prestes a entrar na universidade (similar ao ENEM). Espero poder preparar esses alunos para essa prova, que é muito, enfatizo novamente, MUITO importante para os russos. Eu fui encorajado a começar um blog. (Tenho alguns posts escritos, porém trabalhar, estudar, cozinhar, limpar e escrever um blog não é fácil, hehehe.)

  1. Você passou por alguma situação inusitada em sala de aula por não compartilhar a cultura/língua dos alunos?

Sim. Uma vez estava dando aula para um grupo de Young learners, e ao apontar para o mapa para mostrar onde o Brasil estava, meu aluno, que é bem espertinho, levantou e falou algumas coisas em russo fazendo uns gestos. Quando perguntei a uma outra professora, que é russa, o que ele quis dizer, ela ficou vermelha e traduziu algo no tipo ‘Brazilian girls are bootylicious’. Foi nesse momento que eu entendi o porquê das risadas na sala. Com certeza, a língua tem sido um desafio para mim. Não é simples que nem o inglês. BELIEVE ME! Sem contar que agora que eu estou começando a entender a lógica da língua russa, percebo o porquê dos meus alunos não usarem artigos, terem problemas com a voz passiva…

  1. Qual conselho você daria a professores brasileiros que querem trabalhar na Rússia?

Tem muitas ideias erradas contra os russos. Acredite, tem uma propaganda contra a Rússia muito forte sendo propagada pela mídia, especialmente a norte-americana. Venha para Moscou sem preconceitos. Se possível, inicie seu contrato no final do verão, início do outono, para que você possa fazer que nem eu, ir se adaptando aos poucos ao frio russo. (Essa semana máxima de -4 grau, sendo que aqui é outono e já está nevando). Os russos investem pesado na educação, portanto esperam um professor seguro e qualificado. Sem contar que, se você é que nem eu, adora história, natureza e modernidade com um toque de antiguidade, Moscou não vai fazer feio.

  1. Algo mais que você queira dizer aos BrELTers? 

Desde que eu cheguei aqui, o meu único sentimento é gratidão. Sou grato, pois mesmo estando a mais de 11,000km de distância, sei que pertenço a uma comunidade lindíssima que apoia a diversidade e a formação contínua de professores. Eu compartilho da mesma opinião da recém entrevistada Luiza Mota. Muitos querem trabalhar na União Europeia e esquecem que o nosso mundão é bem diverso, cheio de oportunidades maravilhosas. Faço das palavras dela a minha: pense fora da caixa. Existem outras oportunidades além de União Europeia. Porém, o mais importante: se você tem vontade de trabalhar fora, vá atrás. Qualifique-se. Dê a ‘cara a tapa’. Como meu pai me disse antes de eu fazer todo esse processo… ‘O não você já tem. Corra atrás do sim’. Foi isso que eu fiz! E consegui! Você também consegue!

до свидания!

Nota da BrELT: Nosso colega disse que до свидания! quer dizer tchau. Então a gente retribui com ajuda do Google Translate: Спасибо! Nosso muito obrigado ao Danilo por tirar um tempinho de suas muitas atribuições para ajudar aos colegas com tanta informação interessante. E como ele disse, bora lembrar que este mundo tem muito país legal para a gente conhecer!

Para conhecer mais BrELTers pelo Mundo, clique aqui.

 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s