BrELT coLAB -“A Leitura em Sala de Aula: Lendo além do Texto” por Teresa Carvalho.

Salve BrELTers!

Esperamos que todos tenham aproveitado bastante as festas!

2017 já está trazendo coisa muito legal por aqui. Dessa vez compartilhamos mais uma coLABoração para lá de especial. A partir de uma discussão super rica que rolou na comunidade sobre leitura, convidamos Teresa Carvalho para elaborar mais sobre o assunto.

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     15042274_10211009857792458_6381144091068830279_oTeresa é formada em letras e linguística pela USP e está completando quase 30 anos como professora de inglês e português para estrangeiros. Ao longo destes anos ajudou centenas de pessoas a se comunicarem em inglês e Português, apresentou trabalhos em congressos dentro e fora do Brasil, fez muitos cursos, dentre eles os módulos 1 e 2 do DELTA, e compartilhou o que aprendeu com outros professores durante seus anos de mentoria na Cultura Inglesa, onde dá aulas há 10 anos. No momento, ela está terminando o curso de especialização em língua inglesa na PUC-Rio e está pesquisando e aprendendo sobre o uso de imagens e letramento visual no ensino de inglês como língua estrangeira.

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Obrigado, Teresa!

colab

 

A Leitura em Sala de Aula: Lendo além do Texto  – Teresa Carvalho

   Você já imaginou dar aula para 100 alunos em uma só turma utilizando apenas um aparelho de áudio e uma lousa? Pois um professor que conheci faz isso diariamente em uma localidade remota da África. Como você adaptaria a sua abordagem e a sua metodologia para esta realidade provavelmente bem diferente da sua?

   Agora pense nas diferenças entre um e-mail pessoal e em um e-mail de solicitação de emprego. O que torna um diferente do outro? Pense no formato e no vocabulário utilizado em ambos. O que acontece quando uma receita de bolo é transmitida em um canal de vídeos?

   Todas as situações acima podem ser definidas como gêneros. Em todas estas situações — ou gêneros –, nos valemos de recursos verbais e não-verbais para podermos nos comunicar de forma efetiva e alcançar os nossos objetivos.  Como participantes, podemos transitar entre uma situação ou outra se tivermos familiaridade com as convenções de cada gênero, ou poderíamos nos sentir pouco à vontade se estivermos em uma situação desconhecida, como em uma defesa de tese de doutorado ou até mesmo em uma sala de aula com 100 alunos. Gênero é vida. Os diferentes gêneros “codificam os traços característicos e as estruturas dos eventos sociais, bem como os propósitos dos participantes discursivos envolvidos naqueles eventos ” (Balloco, 2005:65). Eles formam uma espécie de “inventário” dos eventos sociais de uma Instituição, seja ela a venda de um carro ou de um e-mail pessoal.

   No ensino de uma segunda língua, os gêneros desempenham papel fundamental para os nossos alunos. Através da vivência em diversas situações como a leitura de um cardápio ou em uma entrevista de emprego, os nossos alunos aprendem quem fala o que, com quem e como. A leitura em uma segunda língua também exige do aluno familiaridade com o formato, o vocabulário e também a quem o texto se dirige. A escolha dos gêneros que serão trabalhados em sala de aula dependerá em grande parte das necessidades dos nossos alunos. Hoje em dia, com a Internet, ler é fundamental. Porém note o crescente uso dos recursos audiovisuais que acompanham os textos escritos ou que sozinhos dão conta das informações. Portanto, o letramento visual também precisa ser trabalhado no ensino de uma segunda língua. Ler imagens também tornou-se fundamental para os nossos alunos compreenderem o mundo.

   Além de ter-se tornado uma exigência do mundo lá fora, a leitura é privilegiada pelas escolas no ensino de uma segunda língua como ferramenta para o letramento da língua materna. Os alunos também precisam desenvolver a competência leitora para realizar os exames vestibulares. E por isso é preciso que nós professores estejamos familiarizados com os exames e com as questões do ENEM, por exemplo, e a forma como elas são elaboradas. Que textos e gêneros são utilizados nas questões? O que cada questão procura testar? Quais os níveis de dificuldade as diferentes questões apresentam, e que nível de compreensão textual estes exames exigem do candidato?

   ESP (English for Specific Purposes) geralmente está relacionado ao ensino de inglês em uma área de conhecimento específica como finanças, medicina, engenharia, etc. E envolve as habilidades necessárias para o grupo de alunos. Assim, se o aluno precisa fazer apresentações sobre hidrelétricas, o professor o ajudará a fazê-lo ajudando-o a desenvolver fluência e conhecimento de língua específica para aquele gênero.

   No Brasil, no entanto, ESP — ou IFE (Inglês para fins específicos), costuma estar associado à leitura de textos específicos de uma área. Algumas pessoas já ouviram falar de inglês instrumental, que tem como objetivo fazer com que alunos, mesmo tendo baixo nível de proficiência, consigam entender um texto através do reconhecimento dos cognatos, sufixos, prefixos ou de formas verbais. Dependendo do nível de inglês do aluno, a aula poderá ser em português ou em inglês, porém não confundam ESP com métodos de tradução. O aluno deverá buscar no texto elementos linguísticos que o ajudem a compreender as ideias nele contidas e não apenas traduzir o que lê. O objetivo é fazer com que o aluno se desenvolva de forma autônoma a partir do reconhecimento de como a língua funciona tanto no nível lexical como sintático, e também através de estratégias de leitura.

   Dentre as estratégias de leitura que costumamos usar estão skimming e scanning, que geralmente ensinamos aos nossos alunos. Também utilizamos atividades que têm como objetivo gerar curiosidade e interesse dos nossos alunos no texto que irão ler assim como atividades que testam desde o reconhecimento de palavras do texto como a capacidade do aluno de conectar ideias dentro do texto durante a leitura. Após a leitura, podemos pedir ao aluno que dê a sua opinião sobre o texto ou relacione as ideias deste texto a outros textos. Ao fazermos estas atividades, proporcionamos aos nossos alunos a oportunidade de ler um texto em vários níveis, porém nem sempre nos damos conta de como estas atividades são elaboradas e dos seus objetivos, uma vez que muitos de nós trabalhamos com materiais didáticos que já trazem estas atividades prontas.

   Precisamos também nos darmos conta de que ler envolve muito mais do que apenas decodificar palavras. Embora seja considerada uma habilidade receptiva, a leitura requer interação entre o leitor e o texto, a partir da qual significados são construídos e reconstruídos. Diferentes leitores constroem diferentes significados na interação com um mesmo texto dependendo dos seus conhecimentos anteriores e do contexto onde circula este texto. Portanto, os textos têm muito mais a oferecer, e por isso, os nossos alunos podem e devem ir além das questões de reconhecimento de palavras, ou seja, de um conhecimento localizado, e da compreensão das ideias do autor, ou seja, um conhecimento global do texto. Devemos tentar entender como o texto constrói e desconstrói ideias e como os diferentes gêneros nos ajudam a entender as relações sociais.

   Talvez não nos preocupemos muito com estas questões porque muitas vezes, o material didático que utilizamos, e da forma como utilizamos, limita-se à compreensão do texto em si. Muitas vezes sequer temos tempo para trabalharmos os textos de forma mais aprofundada, e não raramente, o texto serve apenas como fonte de vocabulário para a lição ou para gerar interesse do aluno por um tema específico. Textos — quando autênticos ou mesmo adaptados  –, são recursos semióticos riquíssimos, ou seja, repletos de significados, e também como gêneros socialmente construídos e aceitos pelas diferentes comunidades discursivas — jornalistas, médicos, músicos, cientistas, professores, incluindo os próprios alunos através das suas produções textuais  –, inseridos no tempo e no espaço, que podem ser explorados em sala de aula das formas mais variadas.

   Para que possamos ir além, no entanto, precisamos nós mesmos ter uma visão crítica de como ajudamos os nossos alunos a desenvolverem a competência leitora em sala de aula e aproveitarmos os textos para que os nossos alunos tenham também uma visão crítica do que leem. Como eles relacionam o texto às suas realidades? Em que o texto contribui para a visão de mundo dos nossos alunos? O que eles diriam ao autor se pudessem escrever algo para ele? Que significados a ilustração de um texto constrói em conjunto com ele? Que ideologias e relações de poder este texto constrói? Estas e outras perguntas podem ser feitas na busca de uma compreensão dos textos como prática social e como discurso em permanente diálogo com o leitor.

 

Referências:

BALOCCO, A. E. (2005). A Perspectiva Discursivo-Semiótica de Gunther Kress: O Gênero como um Recurso Representacional. In Meurer, J. L. et all (eds). Gêneros: Teorias, Métodos, Debates. Parábola, pp. 65-80.

 

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