Uma professora na Suécia

17778919_10154295460736714_67467292_oComo será viver na Escandinávia? A BrELT member Melissa Ferreira nos conta como é morar nas terras dos vikings, sua experiência como professora e o processo de qualificação local para dar aulas nas escolas suecas.

Como você foi morar na Suécia?

Bom, o meu marido é sueco e ao decidirmos morar juntos, ficou claro que morar na Suécia seria a melhor opção. Ele é jornalista e na época não falava português, logo não teria como trabalhar no Brasil. Por outro lado, eu sendo formada em Propaganda e Marketing e com quase 10 anos de experiência na área TI, teria mais oportunidades de recomeçar a minha vida. Além do fato de falar inglês e espanhol, que poderiam me ajudar a encontrar colocações multiculturais, sem necessariamente falar sueco.

Como você começou a trabalhar como professora na Suécia?

Após quase 2 anos morando na Suécia e depois de terminar o curso de sueco (Sueco para Estrangeiros, Sueco como Segunda Língua e Sueco Avançado), comecei a procurar emprego na área de TI de acordo com a minha experiência anterior. Infelizmente, logo percebi que não seria tão simples. Depois de uns 6 meses de decepções, uma amiga peruana me convidou para dar aulas de espanhol em um curso para adultos. Eu fiquei chocada com a possibilidade pois nunca havia dado aulas e pelo fato de espanhol ser uma segunda língua. Depois de muita insistência, fui conhecer a escola/professoras/grupo e percebi que o nível geral dos alunos era bem baixo. Acreditei então ser possível com os meus conhecimentos de espanhol, depois de 2 anos de estudo no Brasil e anos usando o idioma no trabalho. Realmente foi possível e passei 1 ano e meio dando aulas nessa escola. Me preparava muito para cada aula, pois não queria ser pega de surpresa com perguntas que não teria resposta. No mesmo ano, surgiu outro convite de uma escola de ensino médio, dessa vez para ser a única professora de espanhol e com todas as responsabilidades que o cargo exige. Assustador!  Mais uma vez fui conhecer a escola, entrevista com a diretora e me senti confortável para aceita, mas foi um desafio enorme! Foi 1 ano de MUITO trabalho para um cargo e remuneração de meio período. Toda a preparação das aulas, atividades, correção e minha preparação pessoal levava o dobro do tempo do que um professor “de verdade” levava. Realmente foi uma loucura, mas recebi inúmeros elogios ao longo do ano, tanto de alunos como de colegas, o que me motivou a voltar prá faculdade e me tornar professora de ensino médio.

Quais os requisitos formais para ser professor de inglês na Suécia?

O ensino de inglês na Suécia ocorre no ensino fundamental e no ensino médio. Até 2011, não era obrigatório ter uma licença específica para ser professor. Isso significa que qualquer pessoa que tivesse feito um curso superior na matéria (História, Matemática, Inglês, etc.) poderia dar aulas. A partir de 2011, tornou-se obrigatório e os professores não licenciados foram obrigados a fazerem cursos complementares de pedagogia/didática, etc., mesmo tendo muitos anos de experiência. Ainda há a possibilidade de tornar-se professor sem fazer o programa de formação de professores. Cada matéria/curso tem um requisito mínimo de pontos que equivale a 3 semestres ou mais. A pessoa pode estudar inglês na universidade na Suécia de forma independente ou pode ter estudao no exterior, mas para tornar-se professor, tem que obrigatoriamente fazer um curso complementar de 3 semestres, ministrado em sueco, que tem por objetivo ensinar pedagogia/didática, leis, como avaliar e dar notas, além de valores democráticos como discussão de gênero, multiculturalidade, etc.

O outro caminho é seguir o programa de formação de professores (4,5 anos para ensino fundamental e 5 ano para ensino médio). Para o ensino fundamental, o candidato escolhe 2 ou mais matérias para dar aula e para o ensino médio, são somente duas. No meu caso, eu estou no 4º ano do programa e minhas matérias são inglês e espanhol.

Tendo em vista o custo de vida, a remuneração é compatível, inferior ou superior ao que você receberia no Brasil?

Eu não tenho idéia de qual é a remuneração de um professor no Brasil, a não ser o que escuto dizer sobre ser baixa, mas sei que a variação entre escola pública, privada e os diferentes níveis é grande. Aqui na Suécia há uma grande discussão sobre melhorar o status da profissão de professor, mas por tudo que tenho observado e vivenciado nesses anos morando aqui, a remuneração é superior à do Brasil, pois é superior inclusive à de outras profissões e cargos que tenho conhecimento. Os professores querem melhorias o tempo todo, mas não se escuta que professores trabalham em várias escolas para tentar cobrir as despesas do mês, por exemplo, ou greve de professores para reinvindicar algo. Portanto, a minha análise é que a remuneração está de acordo com o custo de vida do país.

Você sofreu algum preconceito por ser não nativa?

Os brasileiros são bem vistos na Suécia e nunca tive nenhum problema que pudesse ser relacionado diretamente ao fato de ser brasileira. Talvez alguma diferenciação no tratamento por ser estrangeira, mas não especificamente por ser brasileira.

Como está sendo a experiência de trabalhar nesse país sendo brasileira?

Eu trabalhei somente 1 ano e meio e estou há 4 anos somente estudando. O curso na universidade é em período integral e eu preferi me dedicar 100%.

Ao dar aulas de espanhol, senti que foi uma vantagem ser brasileira, pois eles vêem as culturas como sendo muito próximas. Ter uma pessoa da América Latina dando aulas de espanhol acrescentou alguns ingredientes que um professor de espanhol sueco talvez não pudesse agregar.

Quais são as oportunidades de desenvolvimento profissional?

Trabalha-se muito em grupos nas escolas suecas e após alguns anos de experiência e alguns cursos adicionais, o professor pode alcançar o cargo de professor “especialista” ou líder. Isso significa um aumento significativo na remuneração, mas ainda é algo em desenvolvimento, pois surgiu depois de 2011 com a obrigatoriedade de licença. Além disso, os professores podem fazer cursos para se tornarem diretores ou pós-graduação/master/doutorado e dar aulas em universidade ou trabalhar com pesquisas.

Você passou por alguma situação inusitada em sala de aula por não compartilhar a cultura/língua dos alunos?

Algumas situações relacionadas ao vocabulário. Ao ensinar termos em espanhol, por exemplo, e ter a necessidade de traduzir para o sueco para o aluno entender mas não saber a palavra exata. Nessas situações, fui obrigada a usar o inglês para explicar. Os alunos sabiam que estava há poucos anos no país e alguns ficavam felizes de poder me “ensinar” algo de volta.

Mas o mais difícil foi entender o sistema de ensino sueco e a terminologia específica da área. Mesmo depois de 4 anos na universidade, continuo aprendendo muito e tentando entender algumas coisas.

Como é o currículo e a experiência de fazer uma faculdade na Suécia?

O programa de formação de professores tem duração de 4,5 anos para o ensino fundamental e 5 ano para o ensino médio. Para o ensino fundamental, o candidato escolhe 2 ou mais matérias para dar aula e para o ensino médio, são somente duas.

No caso do ensino médio, são 3 semestres para cada matéria, totalizando 6 semestres e 3 semestres de matérias gerais para todos os candidatos à professores, como as que mencionai antes – pedagogia/didática, leis, como avaliar e dar notas, além de valores democráticos como discussão de gênero, multiculturalidade, etc. Há 10 semanas de estágio para cada matéria em escolas que a universidade indica. O último semestre é dedicado ao trabalho de conclusão/monografia.

No meu caso foram 3 semestres de inglês/3 de espanhol e 100% do curso é ministrado nos idiomas. Já os cursos gerais são ministrados em sueco e tem um nível bem avançado, pois grande parte da literatura é em sueco, além de todas as avaliações e apresentações.

A experiência de fazer uma faculdade na Suécia é bem bacana e também bem diferente da experiência que tive no Brasil. Como disse, sou formada em Propaganda e Marketing pelo Mackenzie (SP) e estudei 4 anos em período noturno, depois de trabalhar o dia todo. No Mackenzie tínhamos aulas todos os dias, já aqui tenho aulas alguns dias da semana e o resto da semana é dedicado ao estudo independente. Lembro que no Mackenzie tínhamos alguns capítulos de livros prá ler durante todo o semestre e várias matérias ao mesmo tempo, como na escola. Aqui são vários livros para ler em cada módulo/matéria do curso e os módulos não são simultâneos. Cada módulo (1 mês) pode ter uma lista de 10 livros ou mais, além de artigos acadêmicos diversos. É realmente muita leitura e no início quase entrei em pânico, mas depois aprende-se a priorizar o que ler com mais atenção ou não. As avaliações também são mais abrangentes e exige-se mais análise do que somente compreensão de termos.

Qual conselho você daria a professores brasileiros que querem trabalhar na Suécia? 

São muito bem vindos, pois há uma demanda altíssima de professores no país, mas infelizmente terão que estudar sueco primeiro. Considero impossível trabalhar em uma escolha sueca (com exceção das escolas internacionais) sem conhecer o idioma. Todos os estrangeiros tem direito ao curso gratuito de Sueco, o que quer dizer que a pessoa pode vir estudar um semestre em uma universidade sueca e terá a oportunidade de aprender o idioma.

Além disso, para ter licença como professor no país, é necessário completar os 3 semestres de cursos que mencionei antes e que são dados em sueco. Ou seja, é imprescindível conhecer o idioma.

Talvez para dar aulas de inglês na universidade seja mais fácil, já que toda a comunicação com os alunos (dentro e fora da sala de aula) é feita em inglês, mesmo para os professores suecos.whatsapp-image-2016-11-03-at-19-22-50-1

Mas acrescento que para quem domina o inglês, é muito fácil aprender sueco, então não vejam isso como um obstáculo impossível!

Muito obrigado pela entrevista, Melissa! Adoramos saber um pouco mais da sua vida na Suécia! Desejamos muito sucesso na sua trajetória de professora!

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