Mulheres que inspiram: Sara York

Em comemoração ao mês do Dia Internacional da Mulher, continuamos a nossa série de entrevistas com mulheres que nos inspiram. A convidada de hoje é a professora Sara Wagner York, moradora de São Pedro da Aldeia, no Rio de Janeiro.

19029368_1513237038706900_332135323886508453_n

Sara York é graduada em Letras – Inglês (Licenciatura / UNESA) e Pedagogia /Licenciatura – UERJ, especialista em Gestão Pública na Cultura e atuação do Agente Cultural (UFRRJ) e Escola de Tempo Integral (UFGo). Enquanto ativista LGBTQI+, Sara trabalhou junto à ONG Britânica Sahir House no Reino Unido, em ações de inclusão de refugiados vindos do Oriente Médio, América Latina e África. Mestranda em Educação – ProPEd – CAPE 7 (Nota máxima) do Geni – Grupo de Estudos em Gênero, Sexualidade e(m) Interseccionalidades na Educação e(m) Saúde. Pesquisadora (em Linguagens) em Políticas Públicas e Cultura em Direitos Humanos, pelo NEPP-DH/ UFRJ. Em palestras Sara fala em primeira pessoa sobre o processo de inclusão de pessoas Transgêneros e Travestis nas dinâmicas sócio-educacionais, lutas e complexidades na contemporaneidade, num processo cartográfico de si, de modo a tornar a leitura de sua audiência plena dessa necessidade. Premiada com a Medalha ALUMNI da Universidade Estácio de Sá (2017) pelos trabalhos científicos desenvolvidos junto a comunidade, Sara aceitou nosso convite e o resultado não foi apenas uma entrevista, mas uma lição de vida. Confira:

Você recebeu destaque na mídia por causa de um vídeo ensinando inglês com batidas do funk. Conte mais sobre isso.

Na verdade na mídia foi antes, ganhei notoriedade por ser hairdresser de muitos famosos, alguns a nível mundial, mas principalmente por ter sido a cabelereira de Elza Soares durante o evento em que ela ganharia o Prêmio de Cantora do Milênio na cidade de Londres no Reino Unido em 2012, onde trabalhei por quase 10 anos. Talvez esse seja o meu grande goal,  por ser uma profissional reconhecida no meio artístico por realizar trabalhos para artistas fora do Brasil.

Como foi esse reconhecimento?

Na verdade foi uma surpresa ser chamada pelo pessoal do MidiaNinja, que é hoje um dos maiores veículos que temos, onde todo e qualquer cidadão pode ser lido/visto/ouvido, sem passar pelo crivo das marcas mantenedoras das mídias. Sabemos que essa mídia tenta controlar as massas, suas crenças e suas/nossas ações, entretanto nossas inserções e trabalhos frente a passividade de tantos tem eclodido em novas formas de luta, ação e intervenção.

Recebeu muitos elogios ou críticas?

Muitos elogios. Tanto de pessoas extremamente capacitadas e respeitadas nos campos educacionais, quanto de responsáveis de alunos de todo Brasil que perguntavam onde poderiam encontrar tais dinâmicas e trabalhos assim. O que aliás é recorrente na sala de aula de de inglês mas poucos sabem de nossas abordagens frente ao currículo que nos é sugerido e seguimos. Muitos responsáveis que têm melhor relação com os fazeres diários de seus filhos também pontuavam: “já vi muitas vezes isso na sala de aula de meus filhos…”. Recebi poucas críticas e todas que li foram em função da superficialidade de compreensão ou opinião preconceituosa diante do título da matéria que fala de uma professora trans que ensina inglês com batida de funk, que poucos leram e o fizeram de modo torpe. Li pessoas que não gostam das letras do funk, achando que se tratava de letra e não de música, outras que achavam que seria em  função de ser transgênero e outras confusões por parte dos que não leram a matéria e opinaram a partir do título. Acho importante falar pra evidenciarmos o impacto das das mídias digitais diante de quem se guia pelas pós-verdades.

Nessa mesma matéria, destacam o fato de você ser uma mulher trans e/ou travesti.  De que formas esta condição afetou/ afeta seu trabalho?

Ao termos um criança integrada numa sala de aula onde a regência é feita por uma professora com comprometimento com ensino, amplitude, inclusão e de qualidade, teremos estudantes mais reflexivos, críticos e empáticos. Não se trata do reforço de uma “aceitação” ou “cotas” (caso houvesse) termos uma professora transexual em sala de aula diante de crianças que iniciam suas compreensões, questões pessoais e buscas, mas vê-las buscando o respeito e a empatia em outras estruturas até então desconhecidas e/ou tidas como abjetas. Isto é alguém cuja existência pode ser meramente resumida a um momento e não em sua complexidade enquanto sujeito detentor de direitos. Ao termos este corpo diretamente questionado pelo processo educacional como pela sua coerência, é implicar o valer de direitos e da nacionalização de corpos que falam além das palavras e incomodam para além de sua existência. A sexualidade é discutida com comedimento, como dito pelo Prof.Dr. Pocahy, meu orientador. Ninguém quer sair falando dos assuntos “tabus” na escola, mas é em função desta compreensão que cada dia mais a escola tem sido sucateada pelos sistemas. Se não falarmos de sobre existências e sobre como tornar pessoas aptas a acessar sua cidadania, para que mais servirá a escola, se não para nos dar estes instrumentos? Faz se aqui, o deslocamento de estereótipos em suas representações, quando vemos que “ter uma travesti na escola” pode soar como algo que nos cause surpresa ou até indignação, a pergunta é porquê e de onde vem esta noção para percebermos-na dessa forma?

Como é ser professora da escola pública em tempos de conservadorismo e projetos como ‘escola sem partido’?

O medo (de algo mal ouvido/interpretado ou mal lido) e a agonia (por ver quem é atingido por quem usa destas instâncias, como as pós-verdades na rede) são permanentes!

O deputado Sóstenes Cavalcante, por exemplo, que é um parlamentar do Rio de Janeiro, desde o ano passado tem criado uma série de problemas ao pedir intervenção no Colégio Pedro II,  numa tentativa de criar o enfraquecimento do ensino público. Numa das maiores instituições de ensino do País, a UERJ e seu desmonte que aos olhos do público e veiculado pela grande mídia tem estado em situação precária, mas que em contraposto segue sendo reverenciada por suas políticas e práticas educacionais de nível internacional, segue também com qualidade e resistindo aos golpes que também sofre por parte dos governos em todas as instâncias. Voltando ao “escola sem partido”, neste ano (ano eleitoral e não eleitoreiro, como muitos insistem em pensar!) o deputado já mencionado decidiu, a partir de uma decisão do SFT que abriu instâncias para o pleno reconhecimento das identidades, que seria  de “bom tom” penalizar pessoas trans com 1 ano de prisão caso usassem o banheiro de seu gênero. O que pensar de quem pensa em banheiros como lugares de práticas que não aquelas conhecidas? Que tipo de escola o menino Sóstenes frequentou? Certamente a mesma que eu, uma escola que seccionava.

O trabalho que uma professora desenvolve durante uma vida inteira talvez nunca seja reconhecido senão por seus alunos, talvez diretores e uns poucos colegas. Em um momento político onde profissionais da segurança não respeitam as manifestações de professoras/es, como temos visto em São Paulo, talvez isso me faça ver melhor que escola é essa que frequentaram aqueles que hoje são nossos gestores. De onde vem esses senhores, onde educação e cassetete seguem no mesmo guia?

Além de fazer um trabalho que me esforço e que planejo, ter bons amigos e que gostem e admirem sua caminhada pode fazer diferença se você não possui o famoso “QI”. Meu trabalho vem sendo desenvolvido desde muito cedo, sou professora desde os 16 anos e não me acostumo às práticas servis, capitalistas e patriarcalistas  na educação.

18119301_1466955916688386_3710443769836501336_n

A professora Sara York

 

Conte-nos sobre a sua experiência na escola enquanto aluna. Como foi?

Péssima!

Cresci cercada de professoras/es e familiares que condenavam certos assuntos. Lembro-me de minha tia claramente fazendo “caras e bocas” diante de alguns comentários. Era comum naquele momento em alguns lares na cidade de Goiânia- GO, nos anos 70/80, termos a compreensão da aluno como depositário. Hoje sabemos que não é e não é assim que funciona! Na educação infantil e no ensino fundamental, senti carinho e afeto por uma única professora, a Tia Íris (na pré-alfabetização e depois na 3°série, hoje 4° ano) que mesmo sem muito tempo se esmerava em ser muito doce e solícita). Os demais, por já percebem que estavam com uma criança-viada (em alusão ao evento Queer de Curitiba) faziam questão de serem não inclusivos, seccionistas e cruéis em muitas ações e atividades no cotidiano escolar, como por exemplo, ser ignorada em TODAS as aulas no pátio quando meninas praticavam vôlei e meninos futebol e eu, por não ser lida como menina e não gostar de ser “chacota” dos meninos, passava o ano sendo excluída pelos professores, orientadores e direção, como se fosse a coisa mais natural que podia ser feita. No 8° ano tive minha única reprovação: era a junção da exclusão familiar e educacional. Eu era uma criança e assistia a tudo sem saber “o que ou a quem recorrer”. Tudo isso, numa escola particular.

No ensino superior as experiências foram menos danosas, mas não tão diferentes. Minha segunda docência desta vez em Pedagogia, foi finalizada em 2016 e mesmo naquele espaço que deveria ser inclusivo, práticas de bullying como a segregação, foram vivenciadas/observadas. Mesmo aos 40 anos, o que deveria ser um rastro da minha infância foi tão intensos quanto antes.

 Você claramente é uma pessoa que estuda bastante.

Estudo muito mesmo, não tenho TV há mais de 15 anos e não tenho o hábito de agitações noturnas. Tenho poucos amigos que estejam fora das dinâmicas de compreensões sociais e processos de inclusão. Sou solteira e tenho um filho de 24 anos e sou uma avó ausente muitas vezes. Pra se ter ideia de como a inclusão é um processo poderoso, uma das minhas grandes amigas (cis), que no 2°grau assistiu a muitas exclusões por mim vividas, a prof. Claudia Arantes,  tornou-se professora e instrutora de LIBRAS– Lingua Brasileira de Sinais –  sempre sonhávamos num mundo pra todxs...

Como é ocupar espaços de conhecimento que muitas vezes são negados às mulheres trans?

Sempre foram negados, seja nas práticas de bullying, seja na segregação. O ensino é a maneira pela qual o conhecimento é transmitido, é como conseguimos melhorar nosso intelecto e enriquecer nossa cultura e clareza sobre as coisas da vida. A educação refere-se aos valores humanos e sociais. A segregação e rejeição às pessoas trans são formas de garantir que tais ações nos âmbitos sócio-político-financeiro não cheguem até a nossa população, e isso inicia-se muitas vezes nas famílias que rejeitavam filhos/as por terem como ideal herdeiros que coubessem dentro das histórias de altivez. Entretanto, para nós essa Altivez é um passo a passo que nos é sempre negado. Ao passar pela socialização o indivíduo, através de sua leitura de mundo, compreende a vida e o que o cerca (casa, trabalho, espaços múltiplos, diversão e a escola como parte disso). Permitir a evasão escolar do público trans faz com que aqueles alunos que percebiam a escola como extensão de suas estruturas familiares, possam novamente ter essa identidade negada, reprimida, violada ou ignorada, como razão para o abandono.

Como você acha que nós, professores de inglês, podemos contribuir para que alunos LGBT no geral não sejam excluídos do ambiente escolar?

Acredito, que por ser da área de linguagens, nós somos profissionais que pensam o indivíduo por outros olhares, seja em suas completudes ou falta delas, seja nas subjetividades e colocações, seja em suas ações ecoadas na linguagem. Professoras/es de inglês, via de regra, são pessoas visionárias que por necessidade buscam a imersão e a inclusão de todas/os. A disciplina de Inglês é uma disciplina pensada como e a partir da integração, da ação do “verbo”. As problematizações de gênero no uso de suas formas neutras na língua inglesa são uma prática comum, corriqueira e inclusiva para qualquer professor/a de Inglês. A língua traz sua neutralidade em muitas situações, orações, sujeitos, artigos, pronomes.

O que seria mais inclusivo do que ser professor/a de inglês? Talvez seja ser professor/a inclusivo de inglês no Brasil, onde a linguagem é marcada pelas instâncias do patriarcado e da sujeição branca e europeia mas não é só isso. A linguagem valorizada é aquela que vem do Norte e tem raízes judaico-cristãs (lembrando que o nosso Sul, na verdade é a própria colonização do Norte em ação, como bem pontua Boaventura Santos), o que diz muito sobre nossas formas de perceber as divindades, nossa religiosidade e nossas alteridades.

Quais os assuntos que são mais urgentes para a população LGBT nesse momento?

É importante destacar, nessa pergunta, o fato de estarmos “refazendo os retornos”, onde a nossa busca mais se associe à práticas de legitimação. Como, por exemplo, a instrução sexual oferecida em separado a meninas e meninos, por entender que são diferentes em função social, política e sexual. Como argumenta Paul Preciado:

em primeiro lugar, existe o regime de poder necropatriarcal arcaico, segundo o qual apenas o corpo masculino é um corpo totalmente soberano. Os corpos de mulheres, crianças e organismos não-humanos são inferiores. A soberania masculina é definida em termos necropolíticos com o monopólio legítimo da violência. A autoridade paterna e masculina é primordial e absoluta”.

Se a geração Y está recriando caminhos plurais, por outro lado uma juventude mais consciente tem buscado a compreensão de um “ideal comunitário”, mas também individual. Compreender que links com estruturas não comprometidas com partidarismos e que busquem tratar de casos comuns e específicos tem sido um grande desafio. Se por um lado o TSF, nos traz a possibilidade de inclusão social através de um declaração própria onde as instâncias jurídicas nos compreenderão dentro dos seus binarismos, por outro é preciso instrumentalizar de cidadania (direitos e deveres) o dito “homem comum”.

Você mora na cidade de São Pedro da Aldeia – RJ, o que de mais efetivo tem sido feito para a população Trans?

A cidade possui uma secretaria que trata dessas políticas e atuações, sobre as quais não posso comentar por não estar diretamente ligada e mesmo sendo trans, não acessá-la e conhecê-la. O fato de estar num Programa de Pós Graduação em Educação da UERJ, ser orientanda de um grande pesquisador me fazem pensar a vida como prática política, mas também como de controle de ações. Estar num programa nota máxima (7) atribuída pelo Capes e por se tratar de um programa de conceito internacional, não me permite estar além das minhas proposições que são aprender para aplicar, alterar, modificar, provocar em várias instâncias de modo efetivo e tenho me empenhado para isso. A sujeição de pessoas trans ainda é prática comum em muitos espaços e não seria diferente aqui. Entretanto, meu trabalho com a pedagogia freiriana, que busca libertar oprimidos para que sejam menos opressores, tem sido feito, mesmo diante da grande demanda para ações concretas. Junto às instituições públicas as quais tenho acessado no estado, e nas minhas salas de aula o que tenho feito é ouvir muito e provocar sempre de modo a ter estudantes que possam em suas vivências educacionais experienciar a escola como lugar de prazer, de pesquisa e de socialização com e para todas, todes, todxs e todos.

Se vivemos em um momento em que enfrentar pode ser a solução para as novas reinvenções do capitalismo, sendo este o pai zeloso de todas as outras formas (o patriarcado, o sexismo, as religiões mononucleares e tantos outros filiados), ao ser uma transgênero em sala de aula sou aquela que diante do outro e sem dizer uma só palavra é capaz de provocar o questionamento sexual de si, o que é  um processo de equiparação real de estruturas humanas não inclusas, a serviço da ruptura desse sistema, ou seja, ver uma pessoa que tínhamos como ausente ou inexistente se tornar alguém que possa ser admirada e seguida, e quem sabe um dia verei no mundo, com fluência e liberdade algum/a aluna/o dizer, sou trans e professor/a – inclusivo/a, por que tive como exemplo uma trans-professora-inclusiva.

26991607_1735353023161966_2506213499265963324_n

 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s