BrELTers pelo Mundo: Lidiane Aires – Austrália

Mais do que nunca, muitos professores estão procurando outros países para trabalhar. A série BrELTers pelo mundo hoje desembarca na Austrália, onde a professora está super satisfeita.

  • Há quanto tempo você trabalha nesse local e quais suas funções?

Sou ESL teacher na International house Sydney. Além de preparar os slides para as aulas (usando o English File), tenho de corrigir writing e provas, preparar o material dos alunos (eles trabalham com cópias), atualizar o teaching records diariamente e participar das reuniões semanais. 

Você já trabalhou em outros locais fora do Brasil?

Sim, mas não como professora de inglês. Fui au pair nos Estados Unidos 7 anos atrás.

O que te levou a procurar emprego fora do país? Como você escolheu essa  cidade, país e esse modo de trabalho?

A péssima situação do país, a desvalorização do professor e a oportunidade de uma nova e enriquecedora experiência, além de querer estudar, me levaram a deixar o Brasil. A cidade e o país foram escolhidos por ter mais oportunidades de trabalho.

Quais os requisitos que você precisou cumprir para conseguir esse emprego, em termos de qualificações, certificações, experiência prévia, etc.?

Ter ao menos uma graduação, algum tempo de experiência e CELTA.

Quais foram os requisitos em termo de documentação?

Certificados dos itens mencionados acima e autorização para trabalhar na Austrália (no caso, o visto de estudante, que permite trabalhar 20 horas semanais).

Quais os passos para conseguir um visto como o seu?

O  visto de estudante depende muito do curso que você quer fazer aqui. Ele precisa estar alinhado à sua formação e área de estudo. No meu caso, foi simples porque vim fazer o preparatório para o CPE e já tinha CELTA e CAE no currículo. No momento, estou estudando marketing, o que também está alinhado à minha primeira graduação, em comunicação social com ênfase em jornalismo. Desde que suas intenções sejam genuínas e devidamente justificadas, é  relativamente fácil vir estudar na Austrália, mas fiz tudo isso com a orientação de uma agente.

Então um visto de estudante para um curso de inglês como um preparatório para CPE é suficiente? Há países que só oferecem esse tipo de visto para cursos de nível superior, não é o caso então, certo?

Não é o caso, mas claro que não é só isso. Você tem de escrever uma carta, comprovar vínculos com o Brasil, comprovar renda (tem de pagar o curso, taxas de imigração, seguro saúde). Por isso, é bom procurar uma agência para auxiliar.

Como você ficou sabendo da vaga? Há algum site específico para saber de vagas deste tipo?

Era aluna da escola e fui indicada pelo meu professor de CPE. O LinkedIn aqui é muito recomendado, mas há sites de busca de emprego, apesar de indicação ser mais comum nessa área.

Tendo em vista o custo de vida, a remuneração é compatível, inferior ou superior ao que você recebia no Brasil?

A remuneração é superior a do Brasil. Embora o custo de vida em Sydney seja alto e, como estudante, eu só possa trabalhar 20 horas semanais, ainda vale mais a pena não só em termos de remuneração mas também de qualidade de vida.

Você sofreu algum preconceito por ser não nativa?

Nunca por parte da equipe, que é bem heterogênea, com professores de vários países. Os diretores têm plena consciência da importância de se ter professores não-nativos na escola, não só por terem vivenciado a aprendizagem do idioma (o que não aconteceu da mesma forma com um nativo), mas também por falarmos outras línguas e facilitarmos a comunicação com estudantes estrangeiros, que também buscam acolhimento num país estrangeiro que não fala a língua deles. O preconceito às vezes vem dos próprios alunos, principalmente de algumas nacionalidades. A coisa de  professor nativo ser melhor, apesar de ser um mito, ainda existe.

Como está sendo a experiência de trabalhar nesse país sendo brasileiro?

Tem sido maravilhoso e desafiador porque envolve conhecer outras culturas e efetivamente ensiná-los na própria língua que estão aprendendo (inglês). Tive de explicar termos que antes não precisava me preocupar (pois eram cognatos em português, mas não são em outras línguas) e voltar a usar letra de forma ao invés da cursiva (pois a maioria dos asiáticos consegue ler apenas letra de imprensa). Os alunos têm aulas diárias de 5 a 6 horas, o que também é desafiador. Em relação a ser brasileira, apenas o preconceito mencionado acima (e, às vezes, por ser mulher, dependendo da nacionalidade do aluno).

Você passou por alguma situação inusitada em sala de aula por não compartilhar a cultura/língua dos alunos?

Não (pelo menos, não ainda).

Qual conselho você daria a professores brasileiros que querem trabalhar aí na Austrália?

Estude e melhore profissionalmente. O brasileiro é muito bem visto aqui como trabalhador, mas dar aulas de inglês num país de língua inglesa sem ser nativo vai exigir que você seja extremamente bom naquilo que faz e que tenha um diferencial: que fale outras línguas, que saiba lidar com pessoas (alunos de outras nacionalidades) ou que entenda muito sobre algum exame (como Ielts, FCE, CAE, etc.).


Lidiane, muito obrigado pela entrevista. Temos certeza de que você terá ainda mais sucesso aí na Austrália.

Lidiane Aires começou a trabalhar como professora de espanhol em 2009. Se formou em jornalismo, passou um ano nos Estados Unidos e acabou se tornando também professora de inglês. É especialista em língua inglesa, com ênfase nos estudos de expressões idiomáticas e dá aulas de General English e preparatórios para exames de Cambridge como Ielts e FCE. Atualmente estuda e trabalha na Austrália.
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Mulheres Voluntárias: Aline Aguirre, Juliana Foresti, Sindy Sato e Vanessa Viana.

Nossas entrevistadas de hoje são as 4 mulheres que cuidam do grupo Professores e Escolas de Inglês. Conversamos com este time de mulheres maravilhosas e o resultado foi este papo descontraído que vocês podem conferir abaixo.

 

O que te motivou a fazer esse trabalho?
Vanessa: O que me motivou a fazer isso foi gostar muito desse grupo e ver a oportunidade de contribuir para o crescimento profissional dos meus colegas de forma positiva.

Juliana: O grupo estava bem abandonado na época, ocorrendo diversas discussões, falta de respeito entre os membros, xingamentos, etc. Percebia que a administração do grupo demorava muito tempo para que atitudes fossem tomadas. Então, decidi conversar com o Vinicius Angusti (o criador do grupo) sobre essas questões e ele me ofereceu a posição de moderadora há uns 2 anos quase. Adorei a ideia! Finalmente poderia colocar ordem!
Aline: Eu soube que a Juliana (que estava moderando sozinha na época) estava com uma sobrecarga por tentar ajudar diversas pessoas, que acabavam por aproveitar-se da sua boa vontade. Como eu estava em licença maternidade, com tempo livre, resolvi ajudar.

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Aline Aguirre

Qual a coisa mais difícil de fazer um trabalho voluntário na área de teacher development?

Juliana: Acho que receber um “muito obrigado” e agradar as pessoas. Às vezes acho que as pessoas pensam que temos obrigação de estar ali 24h por dia, como se não tivéssemos uma vida fora da Internet.
Aline: Agradar, mas não acho que seja só na área de teacher development, acredito que isso seja um feature do ser humano.
Vanessa: Olha, a falta de tempo é muitas vezes minha maior dificuldade, porque a gente tem que ganhar dinheiro, né? Lidar com pessoas que curtem agredir e ofender também é desafiador, mas tem o botão de bloquear que torna a vida mais fácil.
Sindy: Talvez o fato que muitos membros não entendem que para este trabalho voluntário nós moderadoras usamos nosso tempo livre para acompanhar as discussões e garantir que todos estão “se comportando”. Mas justamente por sermos mulheres, todas temos jornadas duplas, quando não triplas, portanto nosso tempo livre é muito escasso. É incrível a quantidade de “tretas” que brotam nos fins de semana! E ainda mais incrível é a quantidade de membros indignados que nos contatam por inbox para reclamar do que falamos ou não falamos.

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Sindy Sato

Há muitos conflitos no seu grupo? Como lida com eles?
Vanessa: O grupo tem mais de 25 mil pessoas, então sim, há conflitos, mas no geral tem muita gente do bem, e é por essa gente do bem que eu faço esse trabalho com gosto. Minha forma de lidar com conflitos é na base da conversa, de tentar entender o outro e mediar o conflito para que as partes se entendam. O mais importante é fazer valer as regras do grupo que foram criadas pelos próprios membros.
Aline: Acho o conflito saudável enquanto não haja troca de ofensas. Sou a ‘dedo pesado’ do grupo. As regras de convivência foram decididas em conjunto pelos membros e todo mundo deveria saber cumpri-las sem ter que ficar tomando pito.
Juliana: Sim, sempre teve. As outras moderadoras sabem que eu tenho uma tolerância zero com xingamentos, falta de respeito e coisas que não são pertinentes ao mundo de ELT. Então sempre bani do grupo quem descumpre as regras.

 

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Juliana Forresti

Como você acha que esse trabalho impacta no seu desenvolvimento profissional?
Aline: Acredito que as coisas que publico hoje passaram a ter um alcance maior.
Juliana: Hoje em dia eu creio que me sinto mais ávida por conhecimento. Quando alguém tem alguma dúvida, ajudo da maneira que sei. E se não sei, busco fontes para saber, pois é ótimo descobrir uma coisa nova. Eu acho que não teria desenvolvido tanto meus conhecimentos se não fizesse parte do grupo e mais ainda agora da moderação. Eu e as meninas estamos sempre em contato, sempre trocando experiências. Era um trabalho solo antigamente. Hoje é um trabalho em conjunto.
Vanessa: Eu constantemente compartilho com o grupo minhas ideias e opiniões, aprendo muito, e quando tenho dúvidas gosto de ouvir a opinião dos colegas, sharing is caring.

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Vanessa Viana

 

Qual a extensão da contribuição do seu grupo para o desenvolvimento dos professores que fazem parte dele? Como você mede isso?

Aline: Eu meço por mim mesma. Desde que entrei para o grupo, quanta coisa pude aprender com os outros, e sobre muitos aspectos: metodológicos, administrativos, financeiros, ou simplesmente ideias para aulas.
Juliana: Nosso grupo tem uma rede colaborativa de trocas de materiais, de vagas de trabalho, de divulgação do próprio trabalho. Contamos também com a participação de uma rede de especialistas dispostos a ajudar, a transmitir seus conhecimentos de forma gratuita, ganhando assim uma maior visibilidade de seus trabalhos.
Vanessa: Todos os dias temos professores em início de carreira, ou que estão mudando seu foco, entrando no grupo, esses professores pedem dicas de materiais, de precificação, de metodologia, de nicho, de finanças, de contrato, e de muitas outras coisas que alguns de nós podem considerar básicas, mas que nem todo mundo domina. Eu vejo que as pessoas se ajudam muito e se oferecem para dar dicas, conversar, esclarecer pontos específicos, e isso forma uma rede de apoio muito importante numa profissão que é muito solitária. Eu vejo que as dúvidas são sanadas sempre de forma quase imediata, e pessoas que só se conhecem no mundo virtual passam a indicar umas às outras quando são postadas dúvidas referentes ao assunto que alguém domina. Acho que já caminhamos um bom tanto como comunidade nesse sentido.

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Aline, Juliana, Vanessa e crianças

Quais os objetivos que você ainda gostaria de alcançar através do grupo?
Aline
: Meu objetivo é só manter o grupo up and running. O grupo é o objetivo em si.
Juliana: A paz mundial?? (risos). Só gostaria de um dia poder ver os membros conviverem em harmonia, com respeito, sem conflitos.
Vanessa: Eu quero ver o grupo mais organizado, onde fique mais fácil encontrar o que a gente procura, mais harmonioso, um lugar neutro onde haja menos julgamento e rusgas, onde as pessoas possam concordar e discordar com educação e respeito, para que possamos conquistar direitos como categoria unida. Adoraria que as pessoas se vissem mais como parceiros do que como inimigos. De um ponto de vista mais objetivo, quero firmar parcerias com as pessoas que oferecem produtos e serviços para professores, de forma que esses parceiros ofereçam descontos aos membros do nosso grupo em seus produtos e serviços.

 

O que você considera um drawback no grupo e como lida com isso?
Sindy: Muitos fakes e trolls – não imaginava quantas pessoas têm prazer em tumultuar as discussões, assumindo posições radicais somente para irritar outros membros. Tem sido um bom exercício para aumentar minha paciência, quase uma lição cósmica. No início não tinha certeza como deveria interferir nas “tretas” e pedia a opinião das outras moderadoras para não agir injustamente, mas agora simplesmente my rule of thumb é que todos os membros devem seguir as regras criadas pelo próprio grupo.

Aline: Gente besta. Gente besta é um drawback complicadíssimo. Como lido com gente besta? “Seu comentário foi ignorado com sucesso.”

Juliana: Pessoas sem noção, arrogantes, pessoas que querem esfregar na cara dos outros membros seus conhecimentos. O grupo existe para ser uma rede colaborativa, onde todos possam expor opiniões, ajudar, desde que seja feito com respeito. Ofender alguém só porque a pessoa não tem o mesmo conhecimento, ou só porque não compartilha do mesmo ponto de vista, é algo que precisa mudar. E como disse anteriormente, todas nós da moderação temos uma tolerância zero com ofensas.

 

Agradecemos muito pelo papo irreverente. Desejamos que o grupo de vocês continue sendo um sucesso!

 

 

 

 

Mulheres que inspiram: Sara York

Em comemoração ao mês do Dia Internacional da Mulher, continuamos a nossa série de entrevistas com mulheres que nos inspiram. A convidada de hoje é a professora Sara Wagner York, moradora de São Pedro da Aldeia, no Rio de Janeiro.

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Sara York é graduada em Letras – Inglês (Licenciatura / UNESA) e Pedagogia /Licenciatura – UERJ, especialista em Gestão Pública na Cultura e atuação do Agente Cultural (UFRRJ) e Escola de Tempo Integral (UFGo). Enquanto ativista LGBTQI+, Sara trabalhou junto à ONG Britânica Sahir House no Reino Unido, em ações de inclusão de refugiados vindos do Oriente Médio, América Latina e África. Mestranda em Educação – ProPEd – CAPE 7 (Nota máxima) do Geni – Grupo de Estudos em Gênero, Sexualidade e(m) Interseccionalidades na Educação e(m) Saúde. Pesquisadora (em Linguagens) em Políticas Públicas e Cultura em Direitos Humanos, pelo NEPP-DH/ UFRJ. Em palestras Sara fala em primeira pessoa sobre o processo de inclusão de pessoas Transgêneros e Travestis nas dinâmicas sócio-educacionais, lutas e complexidades na contemporaneidade, num processo cartográfico de si, de modo a tornar a leitura de sua audiência plena dessa necessidade. Premiada com a Medalha ALUMNI da Universidade Estácio de Sá (2017) pelos trabalhos científicos desenvolvidos junto a comunidade, Sara aceitou nosso convite e o resultado não foi apenas uma entrevista, mas uma lição de vida. Confira:

Você recebeu destaque na mídia por causa de um vídeo ensinando inglês com batidas do funk. Conte mais sobre isso.

Na verdade na mídia foi antes, ganhei notoriedade por ser hairdresser de muitos famosos, alguns a nível mundial, mas principalmente por ter sido a cabelereira de Elza Soares durante o evento em que ela ganharia o Prêmio de Cantora do Milênio na cidade de Londres no Reino Unido em 2012, onde trabalhei por quase 10 anos. Talvez esse seja o meu grande goal,  por ser uma profissional reconhecida no meio artístico por realizar trabalhos para artistas fora do Brasil.

Como foi esse reconhecimento?

Na verdade foi uma surpresa ser chamada pelo pessoal do MidiaNinja, que é hoje um dos maiores veículos que temos, onde todo e qualquer cidadão pode ser lido/visto/ouvido, sem passar pelo crivo das marcas mantenedoras das mídias. Sabemos que essa mídia tenta controlar as massas, suas crenças e suas/nossas ações, entretanto nossas inserções e trabalhos frente a passividade de tantos tem eclodido em novas formas de luta, ação e intervenção.

Recebeu muitos elogios ou críticas?

Muitos elogios. Tanto de pessoas extremamente capacitadas e respeitadas nos campos educacionais, quanto de responsáveis de alunos de todo Brasil que perguntavam onde poderiam encontrar tais dinâmicas e trabalhos assim. O que aliás é recorrente na sala de aula de de inglês mas poucos sabem de nossas abordagens frente ao currículo que nos é sugerido e seguimos. Muitos responsáveis que têm melhor relação com os fazeres diários de seus filhos também pontuavam: “já vi muitas vezes isso na sala de aula de meus filhos…”. Recebi poucas críticas e todas que li foram em função da superficialidade de compreensão ou opinião preconceituosa diante do título da matéria que fala de uma professora trans que ensina inglês com batida de funk, que poucos leram e o fizeram de modo torpe. Li pessoas que não gostam das letras do funk, achando que se tratava de letra e não de música, outras que achavam que seria em  função de ser transgênero e outras confusões por parte dos que não leram a matéria e opinaram a partir do título. Acho importante falar pra evidenciarmos o impacto das das mídias digitais diante de quem se guia pelas pós-verdades.

Nessa mesma matéria, destacam o fato de você ser uma mulher trans e/ou travesti.  De que formas esta condição afetou/ afeta seu trabalho?

Ao termos um criança integrada numa sala de aula onde a regência é feita por uma professora com comprometimento com ensino, amplitude, inclusão e de qualidade, teremos estudantes mais reflexivos, críticos e empáticos. Não se trata do reforço de uma “aceitação” ou “cotas” (caso houvesse) termos uma professora transexual em sala de aula diante de crianças que iniciam suas compreensões, questões pessoais e buscas, mas vê-las buscando o respeito e a empatia em outras estruturas até então desconhecidas e/ou tidas como abjetas. Isto é alguém cuja existência pode ser meramente resumida a um momento e não em sua complexidade enquanto sujeito detentor de direitos. Ao termos este corpo diretamente questionado pelo processo educacional como pela sua coerência, é implicar o valer de direitos e da nacionalização de corpos que falam além das palavras e incomodam para além de sua existência. A sexualidade é discutida com comedimento, como dito pelo Prof.Dr. Pocahy, meu orientador. Ninguém quer sair falando dos assuntos “tabus” na escola, mas é em função desta compreensão que cada dia mais a escola tem sido sucateada pelos sistemas. Se não falarmos de sobre existências e sobre como tornar pessoas aptas a acessar sua cidadania, para que mais servirá a escola, se não para nos dar estes instrumentos? Faz se aqui, o deslocamento de estereótipos em suas representações, quando vemos que “ter uma travesti na escola” pode soar como algo que nos cause surpresa ou até indignação, a pergunta é porquê e de onde vem esta noção para percebermos-na dessa forma?

Como é ser professora da escola pública em tempos de conservadorismo e projetos como ‘escola sem partido’?

O medo (de algo mal ouvido/interpretado ou mal lido) e a agonia (por ver quem é atingido por quem usa destas instâncias, como as pós-verdades na rede) são permanentes!

O deputado Sóstenes Cavalcante, por exemplo, que é um parlamentar do Rio de Janeiro, desde o ano passado tem criado uma série de problemas ao pedir intervenção no Colégio Pedro II,  numa tentativa de criar o enfraquecimento do ensino público. Numa das maiores instituições de ensino do País, a UERJ e seu desmonte que aos olhos do público e veiculado pela grande mídia tem estado em situação precária, mas que em contraposto segue sendo reverenciada por suas políticas e práticas educacionais de nível internacional, segue também com qualidade e resistindo aos golpes que também sofre por parte dos governos em todas as instâncias. Voltando ao “escola sem partido”, neste ano (ano eleitoral e não eleitoreiro, como muitos insistem em pensar!) o deputado já mencionado decidiu, a partir de uma decisão do SFT que abriu instâncias para o pleno reconhecimento das identidades, que seria  de “bom tom” penalizar pessoas trans com 1 ano de prisão caso usassem o banheiro de seu gênero. O que pensar de quem pensa em banheiros como lugares de práticas que não aquelas conhecidas? Que tipo de escola o menino Sóstenes frequentou? Certamente a mesma que eu, uma escola que seccionava.

O trabalho que uma professora desenvolve durante uma vida inteira talvez nunca seja reconhecido senão por seus alunos, talvez diretores e uns poucos colegas. Em um momento político onde profissionais da segurança não respeitam as manifestações de professoras/es, como temos visto em São Paulo, talvez isso me faça ver melhor que escola é essa que frequentaram aqueles que hoje são nossos gestores. De onde vem esses senhores, onde educação e cassetete seguem no mesmo guia?

Além de fazer um trabalho que me esforço e que planejo, ter bons amigos e que gostem e admirem sua caminhada pode fazer diferença se você não possui o famoso “QI”. Meu trabalho vem sendo desenvolvido desde muito cedo, sou professora desde os 16 anos e não me acostumo às práticas servis, capitalistas e patriarcalistas  na educação.

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A professora Sara York

 

Conte-nos sobre a sua experiência na escola enquanto aluna. Como foi?

Péssima!

Cresci cercada de professoras/es e familiares que condenavam certos assuntos. Lembro-me de minha tia claramente fazendo “caras e bocas” diante de alguns comentários. Era comum naquele momento em alguns lares na cidade de Goiânia- GO, nos anos 70/80, termos a compreensão da aluno como depositário. Hoje sabemos que não é e não é assim que funciona! Na educação infantil e no ensino fundamental, senti carinho e afeto por uma única professora, a Tia Íris (na pré-alfabetização e depois na 3°série, hoje 4° ano) que mesmo sem muito tempo se esmerava em ser muito doce e solícita). Os demais, por já percebem que estavam com uma criança-viada (em alusão ao evento Queer de Curitiba) faziam questão de serem não inclusivos, seccionistas e cruéis em muitas ações e atividades no cotidiano escolar, como por exemplo, ser ignorada em TODAS as aulas no pátio quando meninas praticavam vôlei e meninos futebol e eu, por não ser lida como menina e não gostar de ser “chacota” dos meninos, passava o ano sendo excluída pelos professores, orientadores e direção, como se fosse a coisa mais natural que podia ser feita. No 8° ano tive minha única reprovação: era a junção da exclusão familiar e educacional. Eu era uma criança e assistia a tudo sem saber “o que ou a quem recorrer”. Tudo isso, numa escola particular.

No ensino superior as experiências foram menos danosas, mas não tão diferentes. Minha segunda docência desta vez em Pedagogia, foi finalizada em 2016 e mesmo naquele espaço que deveria ser inclusivo, práticas de bullying como a segregação, foram vivenciadas/observadas. Mesmo aos 40 anos, o que deveria ser um rastro da minha infância foi tão intensos quanto antes.

 Você claramente é uma pessoa que estuda bastante.

Estudo muito mesmo, não tenho TV há mais de 15 anos e não tenho o hábito de agitações noturnas. Tenho poucos amigos que estejam fora das dinâmicas de compreensões sociais e processos de inclusão. Sou solteira e tenho um filho de 24 anos e sou uma avó ausente muitas vezes. Pra se ter ideia de como a inclusão é um processo poderoso, uma das minhas grandes amigas (cis), que no 2°grau assistiu a muitas exclusões por mim vividas, a prof. Claudia Arantes,  tornou-se professora e instrutora de LIBRAS– Lingua Brasileira de Sinais –  sempre sonhávamos num mundo pra todxs...

Como é ocupar espaços de conhecimento que muitas vezes são negados às mulheres trans?

Sempre foram negados, seja nas práticas de bullying, seja na segregação. O ensino é a maneira pela qual o conhecimento é transmitido, é como conseguimos melhorar nosso intelecto e enriquecer nossa cultura e clareza sobre as coisas da vida. A educação refere-se aos valores humanos e sociais. A segregação e rejeição às pessoas trans são formas de garantir que tais ações nos âmbitos sócio-político-financeiro não cheguem até a nossa população, e isso inicia-se muitas vezes nas famílias que rejeitavam filhos/as por terem como ideal herdeiros que coubessem dentro das histórias de altivez. Entretanto, para nós essa Altivez é um passo a passo que nos é sempre negado. Ao passar pela socialização o indivíduo, através de sua leitura de mundo, compreende a vida e o que o cerca (casa, trabalho, espaços múltiplos, diversão e a escola como parte disso). Permitir a evasão escolar do público trans faz com que aqueles alunos que percebiam a escola como extensão de suas estruturas familiares, possam novamente ter essa identidade negada, reprimida, violada ou ignorada, como razão para o abandono.

Como você acha que nós, professores de inglês, podemos contribuir para que alunos LGBT no geral não sejam excluídos do ambiente escolar?

Acredito, que por ser da área de linguagens, nós somos profissionais que pensam o indivíduo por outros olhares, seja em suas completudes ou falta delas, seja nas subjetividades e colocações, seja em suas ações ecoadas na linguagem. Professoras/es de inglês, via de regra, são pessoas visionárias que por necessidade buscam a imersão e a inclusão de todas/os. A disciplina de Inglês é uma disciplina pensada como e a partir da integração, da ação do “verbo”. As problematizações de gênero no uso de suas formas neutras na língua inglesa são uma prática comum, corriqueira e inclusiva para qualquer professor/a de Inglês. A língua traz sua neutralidade em muitas situações, orações, sujeitos, artigos, pronomes.

O que seria mais inclusivo do que ser professor/a de inglês? Talvez seja ser professor/a inclusivo de inglês no Brasil, onde a linguagem é marcada pelas instâncias do patriarcado e da sujeição branca e europeia mas não é só isso. A linguagem valorizada é aquela que vem do Norte e tem raízes judaico-cristãs (lembrando que o nosso Sul, na verdade é a própria colonização do Norte em ação, como bem pontua Boaventura Santos), o que diz muito sobre nossas formas de perceber as divindades, nossa religiosidade e nossas alteridades.

Quais os assuntos que são mais urgentes para a população LGBT nesse momento?

É importante destacar, nessa pergunta, o fato de estarmos “refazendo os retornos”, onde a nossa busca mais se associe à práticas de legitimação. Como, por exemplo, a instrução sexual oferecida em separado a meninas e meninos, por entender que são diferentes em função social, política e sexual. Como argumenta Paul Preciado:

em primeiro lugar, existe o regime de poder necropatriarcal arcaico, segundo o qual apenas o corpo masculino é um corpo totalmente soberano. Os corpos de mulheres, crianças e organismos não-humanos são inferiores. A soberania masculina é definida em termos necropolíticos com o monopólio legítimo da violência. A autoridade paterna e masculina é primordial e absoluta”.

Se a geração Y está recriando caminhos plurais, por outro lado uma juventude mais consciente tem buscado a compreensão de um “ideal comunitário”, mas também individual. Compreender que links com estruturas não comprometidas com partidarismos e que busquem tratar de casos comuns e específicos tem sido um grande desafio. Se por um lado o TSF, nos traz a possibilidade de inclusão social através de um declaração própria onde as instâncias jurídicas nos compreenderão dentro dos seus binarismos, por outro é preciso instrumentalizar de cidadania (direitos e deveres) o dito “homem comum”.

Você mora na cidade de São Pedro da Aldeia – RJ, o que de mais efetivo tem sido feito para a população Trans?

A cidade possui uma secretaria que trata dessas políticas e atuações, sobre as quais não posso comentar por não estar diretamente ligada e mesmo sendo trans, não acessá-la e conhecê-la. O fato de estar num Programa de Pós Graduação em Educação da UERJ, ser orientanda de um grande pesquisador me fazem pensar a vida como prática política, mas também como de controle de ações. Estar num programa nota máxima (7) atribuída pelo Capes e por se tratar de um programa de conceito internacional, não me permite estar além das minhas proposições que são aprender para aplicar, alterar, modificar, provocar em várias instâncias de modo efetivo e tenho me empenhado para isso. A sujeição de pessoas trans ainda é prática comum em muitos espaços e não seria diferente aqui. Entretanto, meu trabalho com a pedagogia freiriana, que busca libertar oprimidos para que sejam menos opressores, tem sido feito, mesmo diante da grande demanda para ações concretas. Junto às instituições públicas as quais tenho acessado no estado, e nas minhas salas de aula o que tenho feito é ouvir muito e provocar sempre de modo a ter estudantes que possam em suas vivências educacionais experienciar a escola como lugar de prazer, de pesquisa e de socialização com e para todas, todes, todxs e todos.

Se vivemos em um momento em que enfrentar pode ser a solução para as novas reinvenções do capitalismo, sendo este o pai zeloso de todas as outras formas (o patriarcado, o sexismo, as religiões mononucleares e tantos outros filiados), ao ser uma transgênero em sala de aula sou aquela que diante do outro e sem dizer uma só palavra é capaz de provocar o questionamento sexual de si, o que é  um processo de equiparação real de estruturas humanas não inclusas, a serviço da ruptura desse sistema, ou seja, ver uma pessoa que tínhamos como ausente ou inexistente se tornar alguém que possa ser admirada e seguida, e quem sabe um dia verei no mundo, com fluência e liberdade algum/a aluna/o dizer, sou trans e professor/a – inclusivo/a, por que tive como exemplo uma trans-professora-inclusiva.

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BrELTers pelo Mundo #13: Laura Leite – Argentina

Brasil e Argentina podem até ser rivais quando o assunto é futebol, mas a verdade é que muitos brasileiros escolhem viver na terra de Maradona. Nossa entrevistada de hoje é a sensível e poética Laura Leite.

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  1. Há quanto tempo você trabalha nesse local e quais suas funções?

Cheguei em Buenos Aires em julho de 2017, mas como os documentos ficaram prontos em setembro, só então pude começar a trabalhar. Realmente escolhi a pior época do ano, pois por aqui a procura por professores é praticamente toda em fevereiro. Por sorte, uma consultora, que não é uma escola, mas uma empresa que contrata professores para dar aulas em empresas, estava precisando de professor na região em que eu morava. A partir daí comecei a ter mais contatos e consegui mais alunos. Abri um CUIT, que seria o equivalente ao CNPJ e assim pude passar notas fiscais diretamente para as empresas, expandindo assim os lucros. No momento sou autônoma, mas presto serviço para duas multinacionais e tenho alunos particulares. Ser autônoma nesses casos é como ter uma escola. Preciso, além de preparar e dar aulas, elaborar provas, preparar relatórios para o RH das empresas (o que me exigiu um espanhol C1 logo de cara), dar feedbacks constantes, fazer a propaganda e vender os produtos (dou aulas de italiano e português para estrangeiros também).

  1. Você já trabalhou em outros locais fora do Brasil? 

Apesar de ter estudado na Itália essa é a minha primeira experiência fora do CELTA, em 2016, quando tive a oportunidade de ter alunos portenhos.

  1. O que te levou a procurar emprego fora do país? Como você escolheu essa  cidade, país e esse modo de trabalho?

Meu marido é argentino e planejamos essa vinda por um ano e meio. Antes de vir morar fiz o CELTA aqui mesmo em Buenos Aires e vim outras vezes para ter certeza de que era o local certo. Começar trabalhando com uma consultora ao invés de uma escola me fez aprender bastante e me influenciou a trabalhar como autônoma, pois estava preocupada com a adaptação do meu filho e queria ter mais tempo para ficar com ele.

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  1. Quais os requisitos que você precisou cumprir para conseguir esse emprego, em termos de qualificações, certificações, experiência prévia, etc.?

Em todas as entrevistas que fiz com as empresas em que trabalho sempre tive que mostrar as minhas certificações internacionais (Tenho CELTA e FCE), pois aqui são muito exigentes em relação a isso. Os professores formados aqui são muito qualificados e as escolas regulares aplicam o FCE e CAE na própria escola, o que faz com que eles exijam bastante dos estrangeiros aqui, principalmente não sendo um nativo americano, por exemplo. Minha experiência de 8 anos, apesar de não ser muito, contou bastante também.

  1. Quais foram os requisitos em termo de documentação?

Todos os brasileiros têm o direito ao visto permanente. Esperei cerca de dois meses para poder conseguir o meu. Custa cerca de 300 reais e você já sai do local com a permissão provisória chamada “precária”, para trabalhar. Após 30 dias chegou o DNI, a identidade. Não precisei de terceiros para fazer nada, o processo é bastante simples.

  1. Como você ficou sabendo da vaga? Há algum site específico para saber de vagas deste tipo?

Procurei em um site de busca de empregos chamado Computrabajo. Eles usam muito esse meio aqui, inclusive as escolas. Após começar as aulas comecei o network dentro das empresas em que trabalho.

  1. Tendo em vista o custo de vida, a remuneração é compatível, inferior ou superior ao que você recebia no Brasil?

É bastante superior, apesar das escolas regulares pagarem mais do que as empresas (ao contrário do Brasil), ainda assim vale mais a pena pela qualidade de vida e o poder de compra.

  1. Você sofreu algum preconceito por ser não nativa?

Percebi que uma grande parte das escolas de inglês contrata apenas nativos e deixam isso claro já no anúncio. As escolas regulares não têm problemas em relação a isso, muito menos as empresas. Até agora não sofri preconceito diretamente, mas esses anúncios que especificam já são um preconceito só pra quem quer trabalhar em escolas de idiomas. No Brasil o preconceito em relação a isso é muito maior.

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Laura na Argentina

  1. Como está sendo a experiência de trabalhar nesse país sendo brasileiro?

Ao contrário do que todos pensam, os argentinos amam os brasileiros e sempre que digo que sou brasileira eles abrem um sorrisão. Durante o CELTA tive uma classe de 17 alunos (Upper Intermediate) por duas semanas e nunca precisei chamar atenção, todos muito participativos. Já ali entendi que o respeito ao professor era uma questão cultural, mas tive certeza quando comecei a trabalhar mesmo. Os alunos aqui são muito dedicados e conscientes do que devem fazer para aprender, inclusive as crianças. O respeito ao professor é incrível e, mesmo os alunos com cargos altos na empresa são muito humildes e dedicados.

  1. Você passou por alguma situação inusitada em sala de aula por não compartilhar a cultura/língua dos alunos?

Adoro tomar chimarrão e tererê junto com os alunos, isso é muito comum durante as aulas: um só pra todo mundo e vai passando! No mais é tudo muito parecido, eles têm muita influência brasileira aqui, principalmente por causa das músicas e novelas.

  1. Qual conselho você daria a professores brasileiros que querem trabalhar aí na Argentina?

Juntar dinheiro para poder e manter e procurar emprego quando já estiver aqui, pois eles dificilmente contratam pessoas que não tenham a documentação e contratam muito rápido (eu enviei meu currículo dia 5 de setembro e dia 8 comecei!). O mês ideal para procurar emprego é fevereiro, mas o trabalho mesmo só começa em março (as escolas aqui são de março a dezembro).

Muito obrigado pela entrevista, Laura! Ficamos com muita vontade de tomar um chimarrão aí contigo.

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Parte 2 da entrevista com Nayara Bernardes que fez Mestrado na Trinity College Dublin.

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Em março de 2017 entrevistamos a BrELTer Nayara Bernardes sobre o seu curso de Mestrado em Linguística Aplicada pela Trinity College Dublin na Irlanda. Para relembrar, clique aqui.

Dessa vez, ela volta para nos contar dos benefícios e impactos da pesquisa no seu desenvolvimento profissional. Vem com a gente conferir:

 

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1- Como o mestrado mudou, se mudou, a sua visão sobre o ensino de línguas?

Eu acredito que mudou e ampliou minha visão sobre o ensino de línguas em relação a vários aspectos. O primeiro deles é o papel do professor de línguas como pesquisador. Por muito tempo me dediquei em planejar e dar uma boa aula, em ler a respeito de novas técnicas, ir a conferências e tentar ao máximo ser a “melhor professora possível” para os meus alunos. Nada de errado com tudo isso. Pelo contrário, mas ao iniciar o mestrado notei o quanto negligenciei o meu lado pesquisadora e o quanto a sala de aula é um solo muito fértil para pesquisar e melhorar sua própria prática. Acredito que através de “action research” por exemplo o professor pode descobrir muito sobre si e seus alunos e dessa maneira melhorar o processo de aprendizado de um idioma. Fiquei muito tempo sem escrever artigos, sem apresentar em conferências por achar erroneamente que isso era para o pessoal da “área acadêmica” ou por me sentir insegura também. Outro ponto de mudança foi em relação a vontade e a necessidade de instigar em meus alunos a serem mais autônomos na aprendizagem de língua inglesa e se conhecerem melhor descobrindo formas de aprendizagem com as quais eles mais se identifiquem para aprimorar as habilidades linguísticas de maneira mais ampla. Além disso, a minha visão em relação a “Language Testing” se ampliou mais. Essa sempre foi uma disciplina que nunca havia despertado meu interesse, sempre torci o nariz para ela, mas aprendi tanto sobre a responsabilidade que é a elaboração de uma avaliação, sobre os passos e o que deve ser levado em consideração no processo todo, desde a elaboração, validação, aplicação e correção.

 

2-  Quais são os seus próximos passos em relação à colocação no mercado e empregabilidade? Você pretende enveredar pela área acadêmica? Pretende voltar para o Brasil?

Como tenho direito a dois anos de visto após o término do mestrado, tentarei primeiramente conseguir uma vaga em um instituto de idiomas por aqui. Durante o verão trabalhei em duas escolas por indicação de uma amiga brasileira que é professora também. Foi muito gratificante exercer minha profissão novamente ainda mais em um país onde a língua materna é o inglês. Foi uma experiência curta, mas de muito aprendizado, pois fora o CELTA, essa foi a minha primeira experiência ensinando inglês como segunda língua. Ficaria muito feliz se pudesse trabalhar como professora de inglês por aqui novamente. Minha primeira opção seria uma colocação em escolas de inglês mas estou aberta também a outros campos que a linguística tem a oferecer. Por aqui várias empresas como Facebook, Google, Airbnb, contratam linguistas para diferentes funções. A área acadêmica era algo que há alguns anos não me passava pela cabeça mas no futuro não descarto essa possibilidade.

3- Você acha que fez diferença ter feito o mestrado fora? Por que?

Primeiramente gostaria de salientar que o Brasil possui programas de mestrado maravilhosos, tão bom quanto ou melhores do que os encontrados fora. Dito isso, há muito tempo nutria uma vontade de cursar mestrado fora pela oportunidade de aliar a experiência de estudar em uma universidade multicultural, a vivência em um país de língua inglesa e um programa de mestrado relevante em uma universidade de excelência que pudesse contribuir para o meu crescimento profissional. A minha conclusão é que fez diferença fazer mestrado fora porque o que aprendi foi bem além do que estava previsto no currículo. Tive a oportunidade de trocar experiências com pessoas de diferentes partes do mundo, compartilhar o que sei e aprender com o outro, ter insights e vencer barreiras. Foi uma experiência bem desafiadora, pois fazia muito tempo que não escrevia academicamente e isto pesou no início. Tive dificuldades, mas fui me aperfeiçoando, estudando e melhorando tanto a minha escrita quanto a minha fala o que foi me ajudando na questão da autoestima como professora também.

 

4- Como foi a receptividade com você sendo brasileira?

A receptividade tanto dos colegas quanto dos professores foi ótima. Os professores valorizavam minhas contribuições e sempre tiveram interesse em saber  mais sobre os contextos em que eu atuava no Brasil. Já em relação ao mercado de trabalho em escolas de idiomas, a receptividade não é a mesma. Se você for indicado para uma vaga por alguém, há maior chances da escola contratante te chamar para uma entrevista, caso contrário só enviando currículo é mais complicado. Apesar de ainda existirem escolas que só querem contratar professores nativos, há várias que não possuem essa concepção por aqui. Quando dei aula durante o verão não sofri nenhum preconceito ou resistência dos alunos por não ser falante nativa de inglês. Meus alunos nessa ocasião eram italianos e espanhóis. Pelos relatos de professores brasileiros que dão aulas aqui em Dublin a resistência maior vem de alguns brasileiros que não querem ter aulas com seus compatriotas. Os professores relataram que muitos torcem o nariz, mas depois de algumas semanas mostrando que realmente são competentes e estudaram e se especializaram apara estar ali o cenário começa a mudar.

Agradecemos à Nayara por mais uma entrevista e desejamos muito sucesso em sua vida profissional! Go Nayara!

Entrevista com Cecilia Nobre, bolsista Hornby 2017-18

A Cecilia Nobre foi a escolhida pelo British Council para ser a bolsista Hornby brasileira para estudar na Universidade de Warwick e nessa entrevista ela conta como foi o processo da bolsa e dá dicas de como você pode conseguir também.

  1. Gostaríamos de saber um pouco mais de você como professor. Em que contexto(s) você atua?

“Sou professora há 17 anos, comecei dando aulas no CLAC da UFRJ ainda como aluna da graduação. Foi uma experiência incrível! Hoje dou aulas one-to-one online apenas.”

  1. Você poderia falar um pouco mais dessa bolsa para quem não a conhece?

“A bolsa Hornby é em homenagem ao Albert Sydney Hornby, que foi quem idealizou e fez o primeiro Oxford Advanced Learner’s  Dictionary. A bolsa contempla professores de inglês de diversos países em desenvolvimento para estudar o Mestrado em ELT na Universidade de Warwick com todas as despesas pagas. Eles escolhem professores que tenham potencial de impacto nos seus respectivos países para desenvolver o estudo e aprendizado do inglês.”

  1. Como foi o processo seletivo? Foi muito trabalhoso e custoso?

“O processo seletivo foi trabalhoso mas não custou nada, é de graça. Primeiramente o candidato deve preencher o formulário com 5 perguntas de 250 palavras cada. Depois dessa fase, eles entram em contato caso você tenha passado para agendar uma entrevista com o British Council do Brasil. Como morava no Rio, eu fiz a entrevista com 2 pessoas via telefone, durou 35 minutos. Eu me preparei para a entrevista treinando com 2 amigos por 1 semana. Depois você aplica novamente para a University of Warwick e aguarda a resposta deles. Esse último passo foi o mais angustiante pois demorou bem mais do que os primeiros.”

  1. O que você espera do seu curso de mestrado em Coventry?

“Eu estou amando, o curso é fantástico, os professores sabem muito e são super ativos nas suas áreas de pesquisas. A universidade é um sonho, eles nos dão suporte total para tudo. Eu espero adquirir mais habilidades como pesquisadora e mergulhar no mundo do EAP.”

  1. Em que sentido você considera que a bolsa irá impactar sua carreira?

“Já está impactando! Fazer os assignments de no mínimo 2000 palavras está sendo um desafio maravilhoso e como o assessment é através de assignments e não provas, eu acho que posso desenvolver mais meu pensamento crítico baseado nas leituras e aulas. Além disso, o MA na Warwick é bem prático, tem um bom equilíbrio entre teoria e prática, o que eu acho fundamental para nós professores. Tenho certeza de que terminarei meu mestrado com uma visão bem mais crítica de tudo, o que irá me ajudar a desenvolver materiais mais apropriados para meus alunos e outros professores. Além disso, pretendo seguir a carreira acadêmica e o aprendizado que estou tendo com professores tão experientes e gentis está sendo impagável.”

  1. Gostaria de deixar um recado para os BrELTers que querem tentar uma bolsa de mestrado no Reino Unido?

“Tente a bolsa Hornby e pense em como você vai impactar o ELT do Brasil, sendo realista e específico. Essa foi minha 2a tentativa e hoje vejo a enorme diferença entre a 1a application e a 2a. Façam o IELTS assim que possível para não deixar para cima da hora. Além disso, traduzam todos os documentos com um tradutor juramentado logo. Boa sorte!”

Depois dessas dicas, melhor correr antes que o tempo termine. As inscrições para a Hornby 2018-19 terminam no dia 16 de fevereiro de 2018 às 12h do Reino Unido. Para mais informações entre no site: https://www.britishcouncil.in/study-uk/scholarships/charles-wallace-trust/hornby

Obrigada pelas dicas, Cecilia!

BrELTers pelo Mundo #12: Ruama Veras – Itália

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Acha que Itália é só pizza, gente bonita e outras gostosuras?

A querida BrELTer Ruama Veras nos concedeu esta entrevista e nos mostra o que a Itália realmente tem para os professores de inglês:

1. Há quanto tempo você trabalha nessa escola e quais suas funções?

O ano letivo aqui inicia em setembro, comecei a trabalhar no início de novembro de 2017. Faço um trabalho que aqui é chamado de ‘Letricce’, a tradução literal seria ‘leitora’, mas o trabalho consiste em preparar os alunos mais interessados do terceiro e do segundo ano do ensino médio (13 e 12 anos de idade) para os exames KET e MOVERS respectivamente.

2. Você já trabalhou em outros locais fora do Brasil?

Eu morava no Reino Unido, lá tive a oportunidade de dar aulas particulares a brasileiros que iam estudar inglês mas queriam um reforço, ou pessoas que não tinham como ir a escola em horário regular.

3. O que te levou a procurar emprego fora do país? E por que esse país em especial?

Depois de seis anos em Londres o plano era voltar ao país de origem do meu marido (Itália), foi aí onde começou meu projeto dessa nova e excitante carreira de professora.

4. Quais os requisitos que você precisou cumprir para conseguir esse emprego, em termos de qualificações, certificações, experiência prévia, etc.?

Eu vim morar em uma área remota da Itália, bem longe da realidade de cidades como Milão. Eu tenho uma graduação em Administração feita no Brasil, CELTA, cursos de pronúncia e fonética. Além disso fiz 3 meses de trabalho voluntário na escola primária local. E acho que as pessoas me conhecerem e gostarem do trabalho que eu fiz, foi a chave para ser chamada a trabalhar oficialmente.

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Ruama Veras

5. Como você ficou sabendo da vaga? Há algum site específico para saber de vagas na Itália?

Literalmente me ligaram oferecendo, como disse anteriormente, já conheciam meu trabalho. E ajudou também eu ter registro de autônoma, para este trabalho especificamente é essencial.

6. Tendo em vista o custo de vida, a remuneração é compatível, inferior ou superior ao que você recebia no Brasil?

Não posso comparar ao Brasil, nunca fiz este trabalho lá, nem no Reino Unido. Este trabalho é extracurricular e paga por hora em torno de 25 euros, porém não é fulltime, o contrato não é pago mensalmente e sim 2 pagamentos, o contrato dura pelo ano letivo, de setembro a fim de maio. Ainda estou no início da carreira, mas este contrato não seria suficiente para me manter.

7. Você sofreu algum preconceito por ser não nativo?

Sim, no início me foi oferecido um trabalho fulltime, como professora regular, quando fui assinar o contrato o sistema (software) da escola não aceitou minha nacionalidade, ligaram para a prefeitura e disseram que por ser estrangeira não poderia trabalhar como professora regular (substituta), então me ofereceram o cargo de letricce. Fiquei bem abalada no início, então eu resolvi ligar para a prefeitura, onde eu descobri a diretriz (de maio de 2017) que autoriza a contratação de estrangeiros. Foi uma situação muito delicada, mas hoje estou muito feliz com meu trabalho e certamente foi melhor assim.

8. Como está sendo a experiência de trabalhar na Itália sendo brasileiro?

Fora o episodio narrado anteriormente, me sinto muito bem recebida, aprender uma terceira língua na está sendo fácil, mas é muito prazeroso.

9. Qual conselho você daria a professores brasileiros que querem trabalhar aí?

Tudo vai depender de qual cidade você escolher e da aérea de atuação. Escolas particulares de inglês exigem CELTA, escolas regulares exigem C1-2 e de preferência CLIL. Tudo vai depender da demanda da cidade e de seus dirigentes. Na região que eu moro abriram concurso para mais de 200 vagas para professores de línguas, inglês e alemão, mas ainda há demanda por professores.

10. Algo mais que você queira dizer aos BrELTers?

Mudar de país e continuar na sua profissão, seja ela qual for, é uma questão de bom planejamento financeiro, estratégico e legal. Eu tenho muito que agradecer a esta comunidade, que sempre me inspira e motiva. Qual quer dúvida podem ficar a vontade para perguntar. Obrigada pelo convite. Thank you! Grazie!

Nós que agradecemos, sua maravilhosa!